Debate em Fortaleza reúne profissionais e familiares em torno do tratamento psicanalítico com pessoas com autismo

Em evento promovido em julho pelo Centro de Referência à Infância (INCERE), instituição integrante do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP), foi exibido o filme “O silêncio que fala”, que suscitou um rico debate.

O documentário, produzido pelo MPASP e dirigido por Miriam Chnaiderman, traz à cena depoimentos de familiares de pessoas diagnosticadas com autismo sobre a especificidade do trabalho psicanalítico.

Após a exibição do vídeo, o debate – que contou com a participação de diversos profissionais que atuam nesses campos, além de familiares de pessoas com o diagnóstico de autismo (em torno de 40 pessoas) – percorreu questões relacionadas com o diagnóstico em suas múltiplas facetas, como os efeitos iatrogênicos do emprego amplo e irrestrito de classificações nosográficas, e o estabelecimento do mesmo em idades muito precoces frente à potência da neuroplasticidade cerebral na tenra infância. A discussão também trouxe questões pertinentes à etiologia de psicopatologias, em especial o autismo, recaindo uma crítica acerca do discurso médico-científico – ou mesmo de algumas abordagens psicológicas – que localiza a raiz de sua origem em fatores exclusivamente orgânico-biológicos. A hegemonia desse discurso recebeu, conforme cada participante retomava suas falas no debate, questionamentos que evidenciavam a importância da abordagem psicanalítica, tendo em vista que esta sublinha a relevância da subjetividade enquanto formada por vínculos e afetos constitutivos da experiência humana.

Alguns participantes sugeriram uma discussão e trabalhos que pudessem falar mais especificamente sobre o que fazem os psicanalistas nos atendimentos com autistas, pois isso não aparece de forma explícita no filme. Surgiu um posicionamento do pensamento psicanalítico que desvia de um discurso culpabilizante dos atores dos primeiros cuidados – em especial a mãe – e aponta para a necessidade de intervenção pais-bebê. Localizou-se ainda que a natureza da intervenção psicanalítica frente ao autismo apoia-se em uma intervenção precoce que privilegie o emprego de instrumentos mediadores com os fatores de risco, não recaindo em uma abordagem que categoriza fixamente o estado patológico do desenvolvimento, mas também possibilita a localização mínima dos impasses sobre os quais aposta em uma intervenção a tempo.

Fica evidente que o espaço de discussão acerca das questões que põem relevância no movimento abriga questões ainda abertas e, portanto, ricas em número de possibilidades e desenvolvimento teórico-prático. Como foi colocado por um participante do debate, há carência de momentos de discussão que oportunizem uma vasta gama de profissionais e de saberes acerca dos temas.

Luana Timbó e Edmilson Júnior (Equipe INCERE)

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INCERE comemora 15 anos com simpósio em agosto

O INCERE – Centro de Referência da Infância está completando 15 anos e, como forma de celebrar esse tempo de prática, realizará o Simpósio “Clínica, Ética e Estética” nos dias 20, 21 e 22 de agosto, na Casa de José de Alencar, Fortaleza. Maiores informações: 85 3247-1620.

O INCERE é uma instituição participante do MPASP, que conta com equipe interdisciplinar, orientada pelo eixo da psicanálise. O INCERE atende crianças, adolescentes e adultos no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza – CE.

simposio incere 15 anos