Quem cuida da saúde mental infantil

Artigo recente de Nilson Sibemberg, no blog do Estadão Criança em Desenvolvimento, faz o histórico da recente construção das Políticas Públicas em Saúde Mental para a Infância e discorre sobre os desafios que vivemos na
clínica institucional para a ampliação e qualificação dos serviços na rede SUS. É um texto que enriquece a discussão atual e aponta que precisamos avançar.

“O Brasil, apesar das queixas e críticas, ora legítimas, ora infundadas, possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o SUS. Sistema Único de Saúde que se propõe a oferecer à população brasileira atenção integral à saúde com acesso universal. Isto significa que qualquer cidadão, independentemente de sua renda e condição social tem o direito, garantido pelo Estado, de usufruir da atenção à sua saúde. A saúde como direito do cidadão e dever do Estado, garantido na Constituição Federal de 1988, abriu caminho para que movimentos sociais pudessem se mobilizar, demandando dos governos federal, estaduais e municipais políticas específicas para os problemas que os afligem. Organizações de pais de crianças com as mais diversas dificuldades de saúde mental têm buscado junto ao Ministério da Saúde a extensão de direitos sociais e acesso a atendimento especializado para seus filhos. Para melhor compreender este processo é importante, entre outros aspectos, conhecer a história das políticas  públicas de saúde mental para a infância em nosso país.”

Leia o artigo completo aqui.

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A criança como sintoma: mal estar no Brasil

 

Compartilhamos o texto de Ana Laura Prates Pacheco, apresentado na Universidade de Buenos Aires em abril deste ano (2015), na Jornada “El psicoanálisis en la crisis del lazo social“.

[…] destacamos que Lacan convocava os psicanalistas a responderem eticamente:

  • à segregação trazida à ordem do dia por uma subversão sem precedentes;
  • à exclusão interna da psicanálise ao campo da psiquiatria.

Vemos o quanto se faz necessário renovar essa convocação ética nos dias atuais, quase meio século após esse discurso, em tempos de debate sobre o DSM V, a medicalização da infância, a aposta na etiologia genética para o espectro autista, o rebaixamento da maioridade penal no Brasil, a resistência às famílias homo parentais na França, etc. As respostas do psicanalista, como Lacan mesmo indica, devem incidir tanto na geografia (no topos, ou seja, no território[1], ou seja, no plano político) quanto na família.

[1] Faço aqui referência ao conceito de território do geógrafo brasileiro Milton Santos”

 

Para ler o texto completo:

A_criança_como_sintoma_AnaLauraPratesPacheco

Contra a redução da maioridade penal: o que a Psicanálise tem a dizer?

Em um cenário político marcado por tensionamentos e riscos de retrocessos no campo das políticas públicas, a redução da maioridade penal merece destaque. Muitos interesses se colocam em jogo nesse momento. A psicanálise pode acrescentar ainda mais elementos aos tantos já evocados por outras áreas, os quais sustentam a tese de que a redução é ineficaz como resposta às questões de segurança pública que envolvem adolescentes. Não apenas é ineficaz, mas é também promotora de um círculo vicioso através do qual tendemos a criminalizar, e em particular os adolescentes em situação de vulnerabilidade social, reduzindo ainda mais as possibilidades de (re)inserção daqueles que encontram barreiras importantes e precoces no momento mesmo da construção de seus laços sociais. Dividiremos nossa argumentação contra a redução da maioridade penal em três pontos: a estruturação psíquica e o estabelecimento de laços, a lei e a responsabilidade, e por fim, a problematização das relações que podem ser estabelecidas entre a criminalização da adolescência e a noção de perversão do campo social.

Leiam artigo completo de Claudia Mascarenhas Fernandes e Vládia Jucá:

contra_reducao_maioridade_penal-ClaudiaMascarenhas_VladiaJuca

[1] Claudia Mascarenhas Fernandes é psicanalista, Dra. em Psicologia clínica USP, diretora clínica da OSCIP Instituto Viva Infância (SSA_BA).

[1] Vládia Jucá é psicóloga e psicanalista, doutora em Saúde Coletiva pelo ISC-UFBA e professora do Instituto de Psicologia da UFBA.

NOTA DE ESCLARECIMENTO – CPPL

Segue uma nota do CPPL (http://www.cppl.com.br/) em relação a matéria da folha “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/11/1546751-em-laboratorio-cientistas-curam-neuronio-autista.shtml)

Recentemente, no dia 12.11.2014, foi publicada uma matéria na Folha de São Paulo, impressa e digital, intitulada “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” na qual relata que o uso de uma medicação antiga, a hiperforina, foi capaz de corrigir más formações de neurônios causadas por uma mutação no gene TRPC6 correlacionado ao autismo, tudo isso in vitro.
Há duas pesquisas na matéria. Uma que identifica a mutação no gene TRPC6 em alguns casos de autismo e liga tal mutação ao mau funcionamento de certos neurônios que causariam o transtorno. Outra que afirma que a hiperforina foi capaz de corrigir o funcionamento dos neurônios vítimas da mutação do gene TRPC6. Tudo isso em laboratório.
Dessas duas pesquisas se inferiu que o uso da hiperforina corrigiria o funcionamento dos neurônios e, por conseguinte, os sintomas autistas dos pacientes cujo autismo fosse correlacionado a mutação do gene TRPC6. A única tentativa terapêutica com a hiperforina para autismo não deu certo porque, após três meses, a família do paciente desistiu do tratamento.
Engrossamos o coro pelo desenvolvimento de pesquisas e tratamento que alivie os sintomas e ajude as pessoas diagnosticadas com Autismo, mas é preciso cuidado.
O título da matéria vende a impressão de que existem neurônios autistas e que foi possível curá-los em laboratório dando a impressão que a cura do autismo estaria próxima. Ainda estamos longe disso, infelizmente.
Embora o gene em questão seja correlacionado ao autismo, não é o único, nem está sempre ligado ao transtorno como alerta a própria bióloga citada na matéria Karina Griesi Oliveira, da USP “O autismo tem uma genética muito complicada, com muitos genes envolvidos, e ainda não sabemos bem quais deles”. Tampouco, temos garantia que a administração da hiperforina corrigiria os neurônios numa pessoa e nem que, caso isso aconteça, os sintomas autísticos iriam desaparecer.
Além disso, não é demais lembrar, que muitas pesquisas indicam que o ambiente é um fator importantíssimo para o aparecimento do autismo, como apontou uma matéria publica na Folha de São Paulo intitulada “Causas do autismo seriam genéticas e ambientais na mesma proporção, diz estudo”, no dia 05.05.2014 no setor Equilíbrio e Saúde da folha digital.
Com isso, queremos alertar ao efeito que a manchete da publicação “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” pode trazer às famílias com crianças com esse diagnóstico. Sabemos o poder e força de uma manchete. A maioria das pessoas não leem o corpo da publicação e ficarão com a impressão trazida na manchete de que a cura do neurônio autista trará a cura do Autismo.
Esse entendimento equivocado suscitado pela manchete pode trazer efeitos perigosos para as famílias envolvidas por lhes dar a falsa expectativa de cura breve, desmentida no corpo do texto, gerando frustrações e reforçando o fatalismo que acompanha o Autismo. Pode também ter um efeito nefasto sobre a crença nas pesquisas em desenvolvimento sobre o Autismo levando-as ao descrédito pelos leitores comuns, sobretudo a essa importante pesquisa da matéria por não realizar a cura “prometida” no anúncio.

Carta de um pai de um jovem autista

Necessidade e direito de resposta – Patrick Sadoun

Conferência dada em Porrentruy, no 23/10/2014 durante a realização de um colóquio organizado pelo Hospital-dia “La Villa Blanche”, em comemoração dos seus 20 anos.

«Sr. Sadoun, quantas vezes ainda será necessário repetir que a psicanálise não tem nada a ver com o autismo? »

Assim é o email que me foi recentemente enviado pela mãe de um jovem autista, presidente regional de uma associação de pais.
Eu respeito as suas convicções e as escolhas que ela fez para si mesma e para seu filho. Eu gostaria muito que ela respeite também as minhas e que possa conceber que, frente uma questão tão complexa quanto o autismo, ninguém pode pretender ser o possuidor da verdade.

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“Um caso à parte” – escutar o irredutível . Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Um caso à parte” – escutar o irredutível .
Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Trata-se de saber por que há algo no autista ou no chamado esquizofrênico que se congela, poderia se dizer. Mas você não pode dizer que não fala. Que você tenha dificuldade para escutá-lo, para dar alcance ao que dizem, não impede que se trate, finalmente, de personagens sobretudo verbosos”.
(Jacques Lacan, 1975, p.17).

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Muito além da Risperidona

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP), com seus profissionais e instituições associados em todo o território nacional, vem se manifestar a respeito da nota do Ministério da Saúde publicada no dia 12 de setembro sobre a incorporação de “primeiro medicamento para sintoma do autismo”.

Em primeiro lugar, a manchete (que se replicou em diversos artigos sobre essa nota oficial) induz a erro, pois parece se tratar de um novo medicamento (o primeiro) e específico para autismo. A Risperidona é uma medicação utilizada já há algum tempo pela psiquiatria para problemas como agitação, irritabilidade e agressividade graves que não respondem bem a outros medicamentos. É usada para pacientes portadores de transtornos mentais como psicoses, esquizofrenias e transtornos depressivos graves, entre outros, e não especificamente para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo.

O Ministério da Saúde elaborou o documento “Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde das Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do SUS” que estabelece, para os casos de suspeita de autismo, um diagnóstico interdisciplinar e um projeto terapêutico singular. Em alguns casos, o uso de medicação pode ser benéfico, como ação complementar a outros tratamentos e, neste sentido, o MPASP apoia que as famílias tenham acesso à medicação no SUS quando esta é necessária. Porém, é preciso extrema cautela ao divulgar medicamentos com a promessa de melhorar a qualidade de vida desses pacientes, uma vez que pode incentivar pais, professores e até mesmo médicos a buscarem um suposto alívio rápido dos sintomas desagradáveis (como agitação psicomotora e agressividade) sem considerar que a medicação, quando utilizada, deve fazer parte de um tratamento abrangente conduzido por uma equipe interdisciplinar.

Essa situação é ainda mais preocupante ao se considerar o autismo, que se manifesta na primeira infância, quando tal medicamento não é ainda indicado. Ainda, ao longo da infância, seu uso precisa ser rigorosamente avaliado já que a Risperidona, mesmo sendo uma medicação moderna e que pode responder bem em alguns casos, interfere no metabolismo de glicose, podendo ocasionar diabetes e obesidade; interfere na motricidade e pode ter efeitos de impregnação neuroléptica; pode interferir nas vias respiratórias, causar incontinência urinária, hiperprolactinemia, sialorréia, constipação, vertigem, acatisia e outros efeitos colaterais ainda não devidamente testados e comprovados em crianças. Portanto, o uso de Risperidona deve ser criterioso e bem consciente, disponibilizado somente dentro de um plano terapêutico que envolva o paciente, a família, a escola e os diversos profissionais clínicos. O uso de medicação é complexo e deve ser feito, se necessário, a partir de avaliação interdisciplinar em que se considere o tratamento e acompanhamento longitudinal do paciente.

Infelizmente, colegas de várias regiões do Brasil relatam casos de crianças cujo diagnóstico de autismo ainda não foi fechado, mas que já tomam o medicamento. E até casos de escolas que pedem a pais que mediquem seus filhos. Existem ainda crianças cujo tratamento se resume à medicação, e isto é muito grave, pois sabemos que o autismo precisa de um tratamento que leve em conta a complexidade do quadro e não somente um tratamento sintomático!

Em segundo lugar na nota referida, a coordenadora-geral de Saúde da Pessoa com Deficiência do Ministério da Saúde afirma que a medicação é fundamental para o desempenho da criança e informa que o atendimento no SUS é feito na atenção básica e na área de reabilitação, excluindo a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) cujo ponto estratégico é o Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi)  no qual há anos também ocorrem diversos tratamentos de pessoas com autismo e seus familiares com importantes resultados.

Nesse sentido o MPASP alerta para uma eventual e equivocada redução do tratamento do autismo à área da pessoa com deficiência e à medicalização, já que em tal tratamento, por sua complexidade, é imprescindível cuidar das inabilidades e do sofrimento psíquico de modo articulado. Por isso afirmamos nossa posição de que o autismo torna necessário, acima de tudo, um tratamento interdisciplinar, intersetorial e com a participação da família.

A experiência de inúmeros profissionais que atuam em clínicas públicas e privadas, equipes interdisciplinares, ONGs, consultórios particulares, CAPSis e hospitais mostra que pode haver mudanças significativas nos quadros de autismo, principalmente quando há detecção e intervenção precoces.

A “política de incorporação tecnológica” do Ministério da Saúde pode ser um investimento público que acabe revertendo mais em ganhos para a indústria farmacêutica que para os verdadeiros interessados: as crianças e adolescentes com autismo e suas famílias. Disponibilizar no SUS medicamentos para quem precisa é importante, porém precisamos discutir e incorporar tecnologias de cuidado, por isso, recomendamos que, além das medicamentosas, estas sejam ampliadas para ações terapêuticas multiprofissionais e intersetoriais nos diversos contextos sociais, como bem aponta o documento do Ministério da Saúde “Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde das Pessoas com TEA e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial”.

Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública