Quem cuida da saúde mental infantil

Artigo recente de Nilson Sibemberg, no blog do Estadão Criança em Desenvolvimento, faz o histórico da recente construção das Políticas Públicas em Saúde Mental para a Infância e discorre sobre os desafios que vivemos na
clínica institucional para a ampliação e qualificação dos serviços na rede SUS. É um texto que enriquece a discussão atual e aponta que precisamos avançar.

“O Brasil, apesar das queixas e críticas, ora legítimas, ora infundadas, possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o SUS. Sistema Único de Saúde que se propõe a oferecer à população brasileira atenção integral à saúde com acesso universal. Isto significa que qualquer cidadão, independentemente de sua renda e condição social tem o direito, garantido pelo Estado, de usufruir da atenção à sua saúde. A saúde como direito do cidadão e dever do Estado, garantido na Constituição Federal de 1988, abriu caminho para que movimentos sociais pudessem se mobilizar, demandando dos governos federal, estaduais e municipais políticas específicas para os problemas que os afligem. Organizações de pais de crianças com as mais diversas dificuldades de saúde mental têm buscado junto ao Ministério da Saúde a extensão de direitos sociais e acesso a atendimento especializado para seus filhos. Para melhor compreender este processo é importante, entre outros aspectos, conhecer a história das políticas  públicas de saúde mental para a infância em nosso país.”

Leia o artigo completo aqui.

A criança como sintoma: mal estar no Brasil

 

Compartilhamos o texto de Ana Laura Prates Pacheco, apresentado na Universidade de Buenos Aires em abril deste ano (2015), na Jornada “El psicoanálisis en la crisis del lazo social“.

[…] destacamos que Lacan convocava os psicanalistas a responderem eticamente:

  • à segregação trazida à ordem do dia por uma subversão sem precedentes;
  • à exclusão interna da psicanálise ao campo da psiquiatria.

Vemos o quanto se faz necessário renovar essa convocação ética nos dias atuais, quase meio século após esse discurso, em tempos de debate sobre o DSM V, a medicalização da infância, a aposta na etiologia genética para o espectro autista, o rebaixamento da maioridade penal no Brasil, a resistência às famílias homo parentais na França, etc. As respostas do psicanalista, como Lacan mesmo indica, devem incidir tanto na geografia (no topos, ou seja, no território[1], ou seja, no plano político) quanto na família.

[1] Faço aqui referência ao conceito de território do geógrafo brasileiro Milton Santos”

 

Para ler o texto completo:

A_criança_como_sintoma_AnaLauraPratesPacheco

Contra a redução da maioridade penal: o que a Psicanálise tem a dizer?

Em um cenário político marcado por tensionamentos e riscos de retrocessos no campo das políticas públicas, a redução da maioridade penal merece destaque. Muitos interesses se colocam em jogo nesse momento. A psicanálise pode acrescentar ainda mais elementos aos tantos já evocados por outras áreas, os quais sustentam a tese de que a redução é ineficaz como resposta às questões de segurança pública que envolvem adolescentes. Não apenas é ineficaz, mas é também promotora de um círculo vicioso através do qual tendemos a criminalizar, e em particular os adolescentes em situação de vulnerabilidade social, reduzindo ainda mais as possibilidades de (re)inserção daqueles que encontram barreiras importantes e precoces no momento mesmo da construção de seus laços sociais. Dividiremos nossa argumentação contra a redução da maioridade penal em três pontos: a estruturação psíquica e o estabelecimento de laços, a lei e a responsabilidade, e por fim, a problematização das relações que podem ser estabelecidas entre a criminalização da adolescência e a noção de perversão do campo social.

Leiam artigo completo de Claudia Mascarenhas Fernandes e Vládia Jucá:

contra_reducao_maioridade_penal-ClaudiaMascarenhas_VladiaJuca

[1] Claudia Mascarenhas Fernandes é psicanalista, Dra. em Psicologia clínica USP, diretora clínica da OSCIP Instituto Viva Infância (SSA_BA).

[1] Vládia Jucá é psicóloga e psicanalista, doutora em Saúde Coletiva pelo ISC-UFBA e professora do Instituto de Psicologia da UFBA.

NOTA DE ESCLARECIMENTO – CPPL

Segue uma nota do CPPL (http://www.cppl.com.br/) em relação a matéria da folha “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/11/1546751-em-laboratorio-cientistas-curam-neuronio-autista.shtml)

Recentemente, no dia 12.11.2014, foi publicada uma matéria na Folha de São Paulo, impressa e digital, intitulada “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” na qual relata que o uso de uma medicação antiga, a hiperforina, foi capaz de corrigir más formações de neurônios causadas por uma mutação no gene TRPC6 correlacionado ao autismo, tudo isso in vitro.
Há duas pesquisas na matéria. Uma que identifica a mutação no gene TRPC6 em alguns casos de autismo e liga tal mutação ao mau funcionamento de certos neurônios que causariam o transtorno. Outra que afirma que a hiperforina foi capaz de corrigir o funcionamento dos neurônios vítimas da mutação do gene TRPC6. Tudo isso em laboratório.
Dessas duas pesquisas se inferiu que o uso da hiperforina corrigiria o funcionamento dos neurônios e, por conseguinte, os sintomas autistas dos pacientes cujo autismo fosse correlacionado a mutação do gene TRPC6. A única tentativa terapêutica com a hiperforina para autismo não deu certo porque, após três meses, a família do paciente desistiu do tratamento.
Engrossamos o coro pelo desenvolvimento de pesquisas e tratamento que alivie os sintomas e ajude as pessoas diagnosticadas com Autismo, mas é preciso cuidado.
O título da matéria vende a impressão de que existem neurônios autistas e que foi possível curá-los em laboratório dando a impressão que a cura do autismo estaria próxima. Ainda estamos longe disso, infelizmente.
Embora o gene em questão seja correlacionado ao autismo, não é o único, nem está sempre ligado ao transtorno como alerta a própria bióloga citada na matéria Karina Griesi Oliveira, da USP “O autismo tem uma genética muito complicada, com muitos genes envolvidos, e ainda não sabemos bem quais deles”. Tampouco, temos garantia que a administração da hiperforina corrigiria os neurônios numa pessoa e nem que, caso isso aconteça, os sintomas autísticos iriam desaparecer.
Além disso, não é demais lembrar, que muitas pesquisas indicam que o ambiente é um fator importantíssimo para o aparecimento do autismo, como apontou uma matéria publica na Folha de São Paulo intitulada “Causas do autismo seriam genéticas e ambientais na mesma proporção, diz estudo”, no dia 05.05.2014 no setor Equilíbrio e Saúde da folha digital.
Com isso, queremos alertar ao efeito que a manchete da publicação “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” pode trazer às famílias com crianças com esse diagnóstico. Sabemos o poder e força de uma manchete. A maioria das pessoas não leem o corpo da publicação e ficarão com a impressão trazida na manchete de que a cura do neurônio autista trará a cura do Autismo.
Esse entendimento equivocado suscitado pela manchete pode trazer efeitos perigosos para as famílias envolvidas por lhes dar a falsa expectativa de cura breve, desmentida no corpo do texto, gerando frustrações e reforçando o fatalismo que acompanha o Autismo. Pode também ter um efeito nefasto sobre a crença nas pesquisas em desenvolvimento sobre o Autismo levando-as ao descrédito pelos leitores comuns, sobretudo a essa importante pesquisa da matéria por não realizar a cura “prometida” no anúncio.

Carta de um pai de um jovem autista

Necessidade e direito de resposta – Patrick Sadoun

Conferência dada em Porrentruy, no 23/10/2014 durante a realização de um colóquio organizado pelo Hospital-dia “La Villa Blanche”, em comemoração dos seus 20 anos.

«Sr. Sadoun, quantas vezes ainda será necessário repetir que a psicanálise não tem nada a ver com o autismo? »

Assim é o email que me foi recentemente enviado pela mãe de um jovem autista, presidente regional de uma associação de pais.
Eu respeito as suas convicções e as escolhas que ela fez para si mesma e para seu filho. Eu gostaria muito que ela respeite também as minhas e que possa conceber que, frente uma questão tão complexa quanto o autismo, ninguém pode pretender ser o possuidor da verdade.

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“Um caso à parte” – escutar o irredutível . Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Um caso à parte” – escutar o irredutível .
Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Trata-se de saber por que há algo no autista ou no chamado esquizofrênico que se congela, poderia se dizer. Mas você não pode dizer que não fala. Que você tenha dificuldade para escutá-lo, para dar alcance ao que dizem, não impede que se trate, finalmente, de personagens sobretudo verbosos”.
(Jacques Lacan, 1975, p.17).

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Muito além da Risperidona

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP), com seus profissionais e instituições associados em todo o território nacional, vem se manifestar a respeito da nota do Ministério da Saúde publicada no dia 12 de setembro sobre a incorporação de “primeiro medicamento para sintoma do autismo”.

Em primeiro lugar, a manchete (que se replicou em diversos artigos sobre essa nota oficial) induz a erro, pois parece se tratar de um novo medicamento (o primeiro) e específico para autismo. A Risperidona é uma medicação utilizada já há algum tempo pela psiquiatria para problemas como agitação, irritabilidade e agressividade graves que não respondem bem a outros medicamentos. É usada para pacientes portadores de transtornos mentais como psicoses, esquizofrenias e transtornos depressivos graves, entre outros, e não especificamente para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo.

O Ministério da Saúde elaborou o documento “Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde das Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do SUS” que estabelece, para os casos de suspeita de autismo, um diagnóstico interdisciplinar e um projeto terapêutico singular. Em alguns casos, o uso de medicação pode ser benéfico, como ação complementar a outros tratamentos e, neste sentido, o MPASP apoia que as famílias tenham acesso à medicação no SUS quando esta é necessária. Porém, é preciso extrema cautela ao divulgar medicamentos com a promessa de melhorar a qualidade de vida desses pacientes, uma vez que pode incentivar pais, professores e até mesmo médicos a buscarem um suposto alívio rápido dos sintomas desagradáveis (como agitação psicomotora e agressividade) sem considerar que a medicação, quando utilizada, deve fazer parte de um tratamento abrangente conduzido por uma equipe interdisciplinar.

Essa situação é ainda mais preocupante ao se considerar o autismo, que se manifesta na primeira infância, quando tal medicamento não é ainda indicado. Ainda, ao longo da infância, seu uso precisa ser rigorosamente avaliado já que a Risperidona, mesmo sendo uma medicação moderna e que pode responder bem em alguns casos, interfere no metabolismo de glicose, podendo ocasionar diabetes e obesidade; interfere na motricidade e pode ter efeitos de impregnação neuroléptica; pode interferir nas vias respiratórias, causar incontinência urinária, hiperprolactinemia, sialorréia, constipação, vertigem, acatisia e outros efeitos colaterais ainda não devidamente testados e comprovados em crianças. Portanto, o uso de Risperidona deve ser criterioso e bem consciente, disponibilizado somente dentro de um plano terapêutico que envolva o paciente, a família, a escola e os diversos profissionais clínicos. O uso de medicação é complexo e deve ser feito, se necessário, a partir de avaliação interdisciplinar em que se considere o tratamento e acompanhamento longitudinal do paciente.

Infelizmente, colegas de várias regiões do Brasil relatam casos de crianças cujo diagnóstico de autismo ainda não foi fechado, mas que já tomam o medicamento. E até casos de escolas que pedem a pais que mediquem seus filhos. Existem ainda crianças cujo tratamento se resume à medicação, e isto é muito grave, pois sabemos que o autismo precisa de um tratamento que leve em conta a complexidade do quadro e não somente um tratamento sintomático!

Em segundo lugar na nota referida, a coordenadora-geral de Saúde da Pessoa com Deficiência do Ministério da Saúde afirma que a medicação é fundamental para o desempenho da criança e informa que o atendimento no SUS é feito na atenção básica e na área de reabilitação, excluindo a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) cujo ponto estratégico é o Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi)  no qual há anos também ocorrem diversos tratamentos de pessoas com autismo e seus familiares com importantes resultados.

Nesse sentido o MPASP alerta para uma eventual e equivocada redução do tratamento do autismo à área da pessoa com deficiência e à medicalização, já que em tal tratamento, por sua complexidade, é imprescindível cuidar das inabilidades e do sofrimento psíquico de modo articulado. Por isso afirmamos nossa posição de que o autismo torna necessário, acima de tudo, um tratamento interdisciplinar, intersetorial e com a participação da família.

A experiência de inúmeros profissionais que atuam em clínicas públicas e privadas, equipes interdisciplinares, ONGs, consultórios particulares, CAPSis e hospitais mostra que pode haver mudanças significativas nos quadros de autismo, principalmente quando há detecção e intervenção precoces.

A “política de incorporação tecnológica” do Ministério da Saúde pode ser um investimento público que acabe revertendo mais em ganhos para a indústria farmacêutica que para os verdadeiros interessados: as crianças e adolescentes com autismo e suas famílias. Disponibilizar no SUS medicamentos para quem precisa é importante, porém precisamos discutir e incorporar tecnologias de cuidado, por isso, recomendamos que, além das medicamentosas, estas sejam ampliadas para ações terapêuticas multiprofissionais e intersetoriais nos diversos contextos sociais, como bem aponta o documento do Ministério da Saúde “Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde das Pessoas com TEA e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial”.

Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública

Palmatória Química – responsabilidade social e medicalização da infância – Julieta Jerusalinsky

Confiram no link abaixo, do blog Criança em desenvolvimento do Estadão, o texto de Julieta Jerusalinsky sobre a questão da medicalização da infância.

http://blogs.estadao.com.br/crianca-em-desenvolvimento/a-era-da-palmatoria-quimica-responsabilidade-social-e-medicalizacao-da-infancia/

Nem toda agitação ou desatenção é doença – Paulo Schiller e Ilana Katz

Confiram no link abaixo, texto de Ilana Katz e Paulo Schiller para saudar a iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde de SP que regulamenta o uso de Metilfenidato.

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1483158-paulo-schiller-e-ilana-katz-nem-toda-agitacao-ou-desatencao-e-doenca.shtml

Para acompanhar mais de perto a discussão, publicamos abaixo a portaria e o protocolo que regulamenta o uso – conforme informações publicadas no Diário Oficial do Estado de São Paulo (DOSP) de 12 de Junho de 2014.

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Artigo MPASP na Revista Psique

Autismo: diagnóstico e intervenção


Apesar de todas as pesquisas científicas, não se descobriu uma causa orgânica do autismo aplicável a todos os casos, e por isso o seu diagnóstico não pode ser realizado por meio de exames laboratoriais

Assinado pelo Grupo Gestor do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP), formado por:

Adela Stoppel de Gueller
Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e Professora do curso de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Juliana de Souza Moraes Mori
Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP e Fonoaudióloga do CRIA – Centro de Referência da Infância e Adolescência/UNIFESP.

Julieta Jerusalinsky
Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros “Enquanto o Futuro não Vem – A Psicanálise na clínica Interdisciplinar com Bebês” e “A Criação da Criança – Brincar, gozo e fala entre a Mãe e o Bebê”.

Maria Eugênia Pesaro
Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da USP e Diretora Presidente do Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica.

Maria Lúcia Amorim
Mestre em Psicologia – Fundamentos Psicossociais do Desenvolvimento pela USM-SP e Psicanalista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Na atualidade, o grande aumento de casos de autismo torna necessário refletirmos sobre as características desse quadro, sobre os critérios de diagnóstico e sobre o modo de intervenção. Seu diagnóstico é de alta complexidade e não pode ser feito verificando comportamentos por uma check list. É recomendável que seja feito por uma equipe interdisciplinar, pois requer um olhar clínico apurado que acompanhe a produção do paciente em diferentes situações.

Apesar de todas as pesquisas científicas, não se descobriu uma causa orgânica do autismo aplicável a todos os casos, e por isso o seu diagnóstico não pode ser realizado por meio de exames laboratoriais. Embora o autismo muitas vezes apareça relacionado a síndromes genéticas, deficiências sensoriais ou lesões neurológicas, é importante considerar a multiplicidade de fatores, orgânicos e psíquicos, que podem estar envolvidos nesse quadro.

A identificação precoce de alguns desses sinais de sofrimento psíquico permite intervir a tempo, contando com as possibilidades de transformação próprias da infância e, portanto, antes que esses sinais de sofrimento se configurem como um quadro patológico. O trabalho clínico interdisciplinar permite, em muitos casos, uma radical modificação da produção dos bebês e pequenas crianças, tais como a de reestabelecimento da preferência por interagir onde antes se apresentavam traços de clara evitação e exclusão na relação com os demais. A clínica demonstra, a cada dia, por meio dessas evoluções clínicas, a importância de apostar na primeira infância nos efeitos da constituição da subjetividade e não no fechamento diagnóstico. Fechar um diagnóstico antes do tempo produz efeitos iatrogênicos, fixando o que ainda não necessariamente está decidido.

Por isso, ao tratar-se de bebês e pequenas crianças é preciso considerar esses sinais de sofrimento psíquico realizando uma detecção e intervenção precoces não centradas em uma concepção patologizante.

Identificação

Documento produzido pelo Ministério da Saúde em abril deste ano – Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS – seguindo a recomendação da Organização Mundial de Saúde, afirma que “embora os primeiros sinais de Transtornos do Espectro do Autismo se manifestem antes dos três anos, é a partir dessa idade que um diagnóstico seguro e preciso pode ser feito, pois os riscos de uma identificação equivocada (o chamado falso-positivo) são menores”.

Até lá, trabalha-se com critérios cientificamente comprovados por pesquisas referendadas e validadas no circuito acadêmico de Indicadores de Risco Psíquico para o Desenvolvimento Infantil. Tais indicadores permitem avaliar como está se dando a constituição psíquica de um bebê ou pequena criança, e intervir a tempo caso se detectem dificuldades nesse processo, sem que para isso se tome como referência ou se espere a confirmação de quadro patológico fechado.

Por isso, ao tratar de bebês e pequenas crianças é essencial considerar que estão em um momento da vida caracterizado por plena abertura a inscrições das experiências de vida. É preciso contar com essa abertura para a intervenção, em lugar de fazer o diagnóstico antes do tempo e criar um rótulo que fecha o destino de um sujeito.

Descobertas das neurociências coincidem com a perspectiva psicanalítica sobre a importância das experiências de vida para o desenvolvimento. Não nascemos prontos. A relação do bebê com os outros humanos é fundamental para a constituição psíquica e para a formação neuroanatômica. A interconexão neuronal e o modo pelo qual as características genéticas podem se manifestar dependerão também desses estímulos ambientais. Ao mesmo tempo, essa plasticidade própria da primeira infância revela possibilidade de recuperação orgânica diante de dificuldades apresentadas. Desse modo, a plasticidade neuronal e a epigenética demonstram que uma intervenção a tempo faz muita diferença.

Psicanálise e autismo

Para tratar de crianças e adultos com autismo, não basta descrever que observam o mundo de forma fragmentada. É preciso ajudá-los a encontrar saídas para esse estado.
O trabalho clínico interdisciplinar de referencial psicanalítico parte da concepção de que as manifestações de cada pessoa com autismo tem uma peculiaridade que deve ser considerada. É partindo dos seus interesses que buscamos ampliar seus modos de estar com os outros. Não basta suprimir as estereotipias, privilegiando os critérios adaptativos. É preciso que a pessoa com autismo encontre sentido para as experiências que vivencia, que possa formular suas vontades de forma a compartilhá-las com os outros, ampliando os momentos de trocas sociais. Também permite que os pais, muitas vezes desalentados pelo isolamento de seus filhos, possam, pela intervenção terapêutica, reencontrar possibilidades de contato e reconhecimento mútuo com seu filho.

A abordagem psicanalítica em equipe interdisciplinar considera o processo de crescimento, desenvolvimento e constituição psíquica de forma atrelada, visando que as aquisições de linguagem, aprendizagem e psicomotricidade possam ser efetivas apropriações das quais um paciente faz uso em função de sua vontade. Assim, a pessoa com autismo poderá vir a circular socialmente (na família ampliada, na escola, na cidade) com alguma autonomia, guiada fundamentalmente pelos seus interesses singulares.

Ao receber uma família que tenha um filho com autismo, o clínico de referencial psicanalítico avalia e propõe intervenções que levam em conta as necessidades de cada família e cada criança. O que norteia os primeiros encontros é tanto a possibilidade de estabelecer um vínculo com a criança, quanto acompanhar e escutar a família em suas angústias e preocupações, procurando encontrar saídas para esse sofrimento.

Dado que nesse quadro apresentam-se dificuldades principalmente nas áreas de comunicação e interação, e grande restrição de interesses, o clínico irá trabalhar nestas três áreas tendo a constituição psíquica como organizador central, para que as pautas do desenvolvimento atingidas possam ser, acima de tudo, efetivas produções com sentido para o paciente.

A tendência atual da psicanálise é contar ativamente com os pais nos atendimentos de crianças com autismo. Isso permite considerar as dificuldades surgidas na vida cotidiana da criança, dentro e fora do consultório, para construir conjuntamente novas possibilidades de brincar, de diálogo, de estabelecimento de hábitos e aprendizagens. Isso se dá tanto pela escuta dos pais quanto pela participação dos mesmos em sessões da criança com o clínico, a partir das quais os pais podem interrogar, descobrir e construir novas possibilidades de relacionamento com o filho. Trata-se de um trabalho conjunto com aqueles que são centrais nos cuidados, formação e educação da criança e que, portanto, têm um papel decisivo em ajudá-la a atravessar as dificuldades apresentadas: pais, familiares, cuidadores, professores.

O clínico de abordagem psicanalítica procura, em meio ao fechamento autístico de seu paciente, as janelas que oferecem alguma pequena abertura de contato com os outros para que, com a intervenção, as mesmas possam ser mantidas abertas e ampliadas, estendendo os momentos de troca e interação por meio de brincadeiras e aprendizagens que possam passar a ser prazeirosamente partilhadas com os demais.

Para isso, o analista toma como ponto de partida a produção do paciente, reconhecendo suas preferências e buscando compartilhá-las com o mesmo. É a partir desse interesse conjunto que torna-se possível realizar novas produções compartilhadas. Para isso, o analista convoca o paciente e coloca em ação seu corpo, suas palavras, seus gestos e suas tentativas de brincadeira! Mas é preciso fazê-lo com muito cuidado para que o paciente não se sinta invadido e recue em um fechamento.

O psicanalista “provoca” o querer, sem ser invasivo e para isso aceitará que a criança o recuse. Mas ele vai continuar ali, presente ao seu lado, para tentar uma e outra vez. Assim, o trabalho ocorre na fronteira entre não ser invasivo e buscar, a cada possibilidade, o contato com a criança. Começar a partilhar de interesses com os outros torna possível que ocorram aprendizagens com sentido e prazer para o próprio paciente, e não apenas adaptações.

No Brasil

A abordagem psicanalítica do tratamento do autismo mostrou, ao longo dos anos, seus relevantes efeitos clínicos, disseminando seu conhecimento em diferentes âmbitos da saúde e da educação. Há vários anos essa abordagem está presente em marcos institucionais que excedem os consultórios particulares, comparecendo em serviços públicos do SUS, tais como Caps-i, NASF ou atenção básica, clínicas de atendimento vinculadas a universidades ou ONGs, possibilitando que as pessoas com autismo possam ter acesso a essa abordagem de tratamento. Esse trabalho clínico ocorre em articulação com o âmbito educacional, propiciando, sempre que possível, a inclusão de crianças na escola, o que produz efeitos decisivos, não só para a aprendizagem, mas também para os hábitos, sociabilização, linguagem e constituição psíquica.

Ao situar a necessária articulação entre as áreas de saúde mental, reabilitação e educação, os profissionais dessa abordagem vinculados ao atual MPASP (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública) propõem que o cuidado da pessoa com autismo contemple seus direitos e realize tratamentos não segregados.

Ao por em relevo que o tratamento com bebês e pequenas crianças não deve estar centrado na verificação de signos patológicos, mas em sinais de sofrimento que permitam uma intervenção a tempo como aposta na constituição, traz um alerta quanto ao risco atual de epidemias de patologização.