NOTA DE ESCLARECIMENTO – CPPL

Segue uma nota do CPPL (http://www.cppl.com.br/) em relação a matéria da folha “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/11/1546751-em-laboratorio-cientistas-curam-neuronio-autista.shtml)

Recentemente, no dia 12.11.2014, foi publicada uma matéria na Folha de São Paulo, impressa e digital, intitulada “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” na qual relata que o uso de uma medicação antiga, a hiperforina, foi capaz de corrigir más formações de neurônios causadas por uma mutação no gene TRPC6 correlacionado ao autismo, tudo isso in vitro.
Há duas pesquisas na matéria. Uma que identifica a mutação no gene TRPC6 em alguns casos de autismo e liga tal mutação ao mau funcionamento de certos neurônios que causariam o transtorno. Outra que afirma que a hiperforina foi capaz de corrigir o funcionamento dos neurônios vítimas da mutação do gene TRPC6. Tudo isso em laboratório.
Dessas duas pesquisas se inferiu que o uso da hiperforina corrigiria o funcionamento dos neurônios e, por conseguinte, os sintomas autistas dos pacientes cujo autismo fosse correlacionado a mutação do gene TRPC6. A única tentativa terapêutica com a hiperforina para autismo não deu certo porque, após três meses, a família do paciente desistiu do tratamento.
Engrossamos o coro pelo desenvolvimento de pesquisas e tratamento que alivie os sintomas e ajude as pessoas diagnosticadas com Autismo, mas é preciso cuidado.
O título da matéria vende a impressão de que existem neurônios autistas e que foi possível curá-los em laboratório dando a impressão que a cura do autismo estaria próxima. Ainda estamos longe disso, infelizmente.
Embora o gene em questão seja correlacionado ao autismo, não é o único, nem está sempre ligado ao transtorno como alerta a própria bióloga citada na matéria Karina Griesi Oliveira, da USP “O autismo tem uma genética muito complicada, com muitos genes envolvidos, e ainda não sabemos bem quais deles”. Tampouco, temos garantia que a administração da hiperforina corrigiria os neurônios numa pessoa e nem que, caso isso aconteça, os sintomas autísticos iriam desaparecer.
Além disso, não é demais lembrar, que muitas pesquisas indicam que o ambiente é um fator importantíssimo para o aparecimento do autismo, como apontou uma matéria publica na Folha de São Paulo intitulada “Causas do autismo seriam genéticas e ambientais na mesma proporção, diz estudo”, no dia 05.05.2014 no setor Equilíbrio e Saúde da folha digital.
Com isso, queremos alertar ao efeito que a manchete da publicação “Em laboratório, cientistas curam neurônio autista” pode trazer às famílias com crianças com esse diagnóstico. Sabemos o poder e força de uma manchete. A maioria das pessoas não leem o corpo da publicação e ficarão com a impressão trazida na manchete de que a cura do neurônio autista trará a cura do Autismo.
Esse entendimento equivocado suscitado pela manchete pode trazer efeitos perigosos para as famílias envolvidas por lhes dar a falsa expectativa de cura breve, desmentida no corpo do texto, gerando frustrações e reforçando o fatalismo que acompanha o Autismo. Pode também ter um efeito nefasto sobre a crença nas pesquisas em desenvolvimento sobre o Autismo levando-as ao descrédito pelos leitores comuns, sobretudo a essa importante pesquisa da matéria por não realizar a cura “prometida” no anúncio.

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Um comentário sobre “NOTA DE ESCLARECIMENTO – CPPL

  1. A psicanálise, como práxis inteiramente derivada do campo científico, é solidária de todo e qualquer esforço metodologicamente sério para a elucidação e tratamento eficaz do autismo tanto quanto de qualquer outra forma de sofrimento psíquico intenso e permanente, seja por meios orgânicos ou subjetivos. Como na frase cirúrgica de Freud: “A psicanálise não costuma negar nada que proceda de outros lados. O que acontece é que algo que permaneceu por muito tempo desconsiderado, a partir do momento em que passa a ser incluído, torna-se o essencial”.

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