“Um caso à parte” – escutar o irredutível . Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Um caso à parte” – escutar o irredutível .
Ana Martha Maia (EBP/AMP)

“Trata-se de saber por que há algo no autista ou no chamado esquizofrênico que se congela, poderia se dizer. Mas você não pode dizer que não fala. Que você tenha dificuldade para escutá-lo, para dar alcance ao que dizem, não impede que se trate, finalmente, de personagens sobretudo verbosos”.
(Jacques Lacan, 1975, p.17).

Sobretudo, verbosos. Esta célebre citação de Lacan pode ser lida em duas partes: de um lado está o sujeito e, do outro, aquele que o recebe em tratamento, ou trabalha em torno dele em uma instituição. Embora muitas vezes se coloque fechado em si mesmo, recusando inicialmente qualquer contato, o autista fala. A questão que surge, quando pensamos no tratamento clínico ou no trabalho em instituição, é se quem o recebe está com dificuldade de escutá-lo. Porque na medida em que há a aposta, por mais bizarra que seja sua forma de se comunicar, abre-se um espaço para suas invenções e seu modo de estabelecer laços. Escutemos, então, o que os autistas nos ensinam (MALEVAL, 2012).
Duas experiências em instituições exemplificam justamente o contrário: os efeitos de um trabalho não fundamentado no irredutível da singularidade do sujeito.
Uma pequena menina inicia a adaptação escolar em uma creche. Sempre isolada das outras crianças, não chora, não balbucia, não responde ao chamado de seu nome, não procura o olhar do outro. Seu corpo parece não ter tonicidade muscular. Em formação psicanalítica, a psicóloga observa a criança e leva seus comentários para uma reunião de equipe. Embora não seja esta sua aposta, a equipe indica uma avaliação psicomotora. Um tempo depois, a partir de pesquisas na internet, o pai supõe que a filha seja autista e procura a psicóloga para conversar, dizendo que a mãe da menina se recusa a escutá-lo, não admitindo a hipótese deste diagnóstico. Em outra reunião, a psicóloga leva esta entrevista com o pai e a equipe e esta faz a indicação de uma avaliação neuropediátrica. A partir desta avaliação, uma fonoaudióloga passa a orientar os pais e os profissionais da creche na forma de lidarem com a criança. As informações devem ser dadas em tom de comando, com palavras no imperativo: “Pega!”, “Dá!”, “Come!”, “Veste!”.
Certo dia, muito angustiada, a professora procura pela psicóloga: não sabe o que fazer com a menina que acordou e chora ininterruptamente. O que será que ela quer? – pergunta a professora para a psicóloga. “Como vou saber?”. Quem pode saber? – prossegue a psicóloga. E a professora sai, vai à sala, onde está chorando a menina, e se dirige para ela: ”o que foi, você está com sono, sede, fome?” Nesse momento, o choro cessa e um balbucio se inicia: mamamama. Imediatamente, a professora retorna à psicóloga: ”a ‘fono’ disse que isso quer dizer X, Y ou Z” (palavras que iniciam com M). Será?- pergunta a psicóloga, ao que a professora responde ”pode ser outra coisa, né?” e, mais uma vez, retorna à sala de aula. Na hora da saída, ela conta para a psicóloga que levou a menina para comer, fora do horário de alimentação, e que ela parou de chorar. (MAIA, DOMINGUES, VARGAS, TINOCO, ANJOS, 2013)
Na mesma época, uma experiência em instituição “especializada” apresenta um impasse semelhante. Em uma clínica de reabilitação, um menino é diagnosticado como deficiente mental e inicia o que chamam de “tratamento global”, depois de ser avaliado por um profissional de cada especialidade. Este menino evita o olhar dos outros e atividades coletivas. Somente brinca sozinho. Apresenta dificuldade de aprendizagem e fala mecanizada. Pouco tempo depois de iniciado o tratamento, reage com agressividade às técnicas diretivas, recusa as intervenções da fonoaudióloga e bate na terapeuta ocupacional com o braço engessado. A equipe de psicologia não quer atendê-lo, quando uma psicóloga – também em formação psicanalítica – que estava entrando na instituição, coloca na reunião o desejo de recebê-lo. Para os atendimentos, o menino sempre chega acompanhado do pai, que nada sabe sobre ele. De acordo com o discurso da mãe: “eu não sabia o que fazer quando ele nasceu. Não senti nada. Para mim, era como um boneco. Quando era pequeno, tinha vontade de bater a cabeça dele na parede, pois ele só gritava. Hoje é tranquilo, fica sempre na dele”. A criança se coloca em trabalho.
O impasse ressurge: enquanto a psicóloga acolhe as invenções singulares da criança, a fonoaudióloga inicia um processo de conclusão do caso, alegando que o menino não apresentava evolução e que aquele não era um espaço adequado para seu tratamento. Ela coloca no parecer o termo “impossibilidade terapêutica” que significa para a clínica que não há saída, que o tratamento deve ser finalizado. Sabendo que esclarecer o diagnóstico de autismo excluiria o caso, uma vez que esta instituição não recebe crianças autistas e psicóticas e acredita que, no autismo, estes sujeitos não têm cérebro, e lembrando que o encaminhamento não é um procedimento ali considerado, a psicóloga sustenta prosseguir os atendimentos, mostrando os avanços do menino, neste tempo de trabalho, sem mencionar o diagnóstico. (MAIA, JUNQUEIRA, AMOEDO, VARGAS, TAVARES, MONNERAT, ANJOS), 2013).
Estas duas vinhetas ilustram como a etiquetagem ignora o saber autêntico da criança (MILLER, 2011), o que ela diz, em seu jeito próprio de dizer. Como significantes mestres, as etiquetas classificam, generalizam, segregam e impedem que invenções singulares sejam colocadas em cena. A etiquetagem também traz efeitos para os profissionais: elas engessam suas intervenções em instrumentos padronizados.
A expansão dos critérios diagnósticos para o autismo culminou em sua eliminação na versão mais recente do DSM, em que o “espectro do autismo” é a categoria que engloba, com diferentes níveis de severidade, o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação. Do leve ao moderado e deste ao “alto nível”, tem-se uma amplitude de categorias, em torno de um instrumento globalizante, que promove uma verdadeira progressão epidêmica do autismo (LAURENT, 2012). Estes critérios estão longe dos fundamentos clínicos da psiquiatria clássica, centrada no caso e, desta forma, mais próxima da abordagem da psicanálise. Ao se afastarem da clínica do caso, promovem a foraclusão do sujeito, com o que há nele de mais singular e irredutível. E, assim, as discussões ficam baseadas em classificações, etiquetas, números e percentuais, na busca de um universal para todos (LAURENT, 2010).
A seu modo, o autista diz o que deseja – como fez a menina na escola -, propõe de que maneira pode aceitar a aproximação do outro e mostra a solução que encontrou para o que experimenta como insuportável. Daniel Tammet, por ele mesmo, nos transmite sua experiência autista sobre a relação com números e letras, o corpo, o uso do objeto, a invenção do duplo e a aprendizagem de várias línguas, até inventar uma própria.
Nascido em janeiro de 1979, época em que o autismo era pouco conhecido pelos médicos e grande público, o inglês Daniel Tammet foi descrito como um menino que tinha uma syndrome savant, síndrome do idiota-prodígio, em virtude de seu estranho comportamento. Em 1994, recebeu o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Primogênito de seis filhos, tornou-se conhecido mundialmente por ter batido o record europeu de recitar, sem errar, 22.514 decimais do número pi. Até hoje, Tammet tem uma relação especial com números e letras, além de uma facilidade surpreendente de aprender línguas. Em 2007, escreveu seu primeiro livro Je suis né un jour bleu. Escrevendo sobre sua experiência autista, pretendia ajudar outros jovens, dentre eles, um de seus irmãos, a viver seu autismo de alto nível, a se sentir menos isolado e a acreditar que é possível ter uma vida feliz. Em suas palavras: “Eu sou a prova viva disso” (TAMMET, 2006/2007, p.24).
Quando bebê, Tammet chorava ininterrupta e inexplicavelmente. Tinha dificuldade para dormir e, aos dois anos, época do nascimento do primeiro irmão -“exatamente ao contrário de mim, alegre, pacífico e sábio” (2006/2007, p.30) – começou a apresentar balanceios com o corpo e o comportamento repetitivo de bater a cabeça na parede.
“Meus pais não queriam que eu fosse um caso à parte. […] Antes de tudo, eles queriam que eu fosse feliz, com boa saúde e capaz de conduzir uma vida normal. Eu penso que eles tinham igualmente medo de serem estigmatizados porque tinham uma criança com problemas de desenvolvimento” (TAMMET, 2006/2007, p.33).
A entrada na creche foi indicada por um especialista, que explicou seu comportamento como excesso de tensão. Da mesma maneira que em casa, isolava-se dos outros. Evitava jogos e atividades coletivas: “Eu era uma criança no meu mundo” (2006/2007, p.32). Na creche, descobriu a fascinação pelas diversas ampulhetas de areia, com as quais passava grande parte do dia.
Depois da “obsessão” pelas ampulhetas, são os livros infantis que detém sua atenção. É com eles que tapa os ouvidos, quando barulhos o atormentam. São eles que lhe proporcionam prazer, ao olhar imagens coloridas e letras. Tammet conta que adorava o silêncio que ficava na sala, enquanto seus pais liam. É com os livros que empilha ao redor de si, que ele faz um tratamento para seu corpo, inventando um envelope que chama de “cobertura numérica” (2006/2007, p.40).
Aos dez anos, sentindo profundamente um sentimento doloroso de solidão, Tammet criou seus próprios amigos, como Anne, a senhora viúva que ele pode ver, ao fechar os olhos. Anne compensa sua falta de amigos, da mesma forma que ele lhe faz companhia, na ausência do marido. “Ela era a personificação de meus sentimentos de solidão e incerteza” (2006/2007, p.107). Todos os sujeitos autistas mostram, seja em seus comportamentos ou em suas palavras, que os objetos autísticos e seus duplos constituem uma ajuda preciosa para eles (MALEVAL, 2009).
Quando criança, Tammet inventava neologismos e tinha o sonho de criar uma língua própria. Depois de aprender muitas línguas, por meio de uma excelente memória visual, e de terminar os estudos na escola, pôde se dedicar ao projeto: “Eu nomeei minha língua de Mänti” (2006/2007, p.216). “Muitos linguistas se interessaram pelo Mänti, pensando que esta poderia lhes ajudar a entender meu talento pelas línguas” (2006/2007, p.217). “O Mänti existe como uma expressão tangível e comunicável de minha intimidade. Cada palavra resplandece em sua cor e sua textura, é para mim como uma obra de arte. Quando eu penso ou falo em Mänti, é como se eu estivesse pintando com palavras” (2006/2007, p.218). Fazendo um uso singular de sua invenção, Tammet vivifica o Outro. O tratamento que dá ao Outro é concomitante ao que faz com seu próprio corpo.
Foi com o objetivo de esclarecer ideias falsas sobre a capacidade dos autistes savants, como a inaptidão criativa, que escreveu seu segundo livro: Embrasser le ciel immense, que ele mesmo traduziu para o francês. Se no primeiro ele mostra que sua “vitória sobre a prisão do autismo não é uma exceção”, com este explica que não há uma forma típica, “cada indivíduo autista é diferente” (2009, p.30), o que exemplifica com os considerados Aspergers Richards Borcherds (professor de matemática, em Berkeley), Vernon L. Smith (prêmio Nobel em Economia), entre outros.
Tammet inicia seu terceiro livro, L’éternité dans une heure – la poésie des nombres, remetendo-se ao primeiro, ao dizer que escrever mudou o curso de sua vida. “Minha autobiografia se abre sobre seu diagnostico. Enfim, foi dado um nome a minha diferença” (2012, p.10). Das imagens coloridas, aos números, às letras, Tammet articula a matemática à literatura, faz poesia com números e comenta que, ainda hoje, recebe mensagens sobre o autismo. “Que posso eu lhes dizer?” (2012, p.10). “O mundo precisa de artistas. Cada um deles transforma sua porção da noite em palavras e imagens, em notas e números.” (2012, p.297).
Atualmente, morando na França, Tammet se dedica diariamente a escrever e, como se observa neste terceiro livro, não está voltado apenas a sua autobiografia. Ele escreve sobre biografias, sobre o outro, sobre o mundo, para o outro, para o mundo. Seus livros “passam de uma língua a outra […]. Todos os dias, eu me sento a minha mesa e me digo: e se …” (2012, p.12).”
O que Tammet nos ensina é que o sujeito autista tem seu modo singular de lidar com a linguagem, com seu corpo e com os laços sociais. E que na verdade, como cada caso é único, singular, não importando se trata de uma neurose, psicose ou autismo – todo tratamento, neste sentido, é “Um caso à parte”.

Referências bibliográficas
MAIA, AMW; DOMINGUES, C.; VARGAS, P.; TINOCO, R.; ANJOS, V. Etiquetagem e apagamento das invenções singulares. Laboratório “A criança entre a mulher e a mãe” (CIEN-Rio). CIEN Digital. Nº 15. Novembro, 2013.
MAIA, AMW.; JUNQUEIRA, AC; AMOEDO, C; GOMES, N; VARGAS, P; TAVARES, R; MONNERAT, S; ANJOS, V. Quando a criança é a bússola. Texto inédito, elaborado pelo Laboratório “A criança entre a mulher e a mãe” (CIEN-Rio), a partir do tema da VI Jornada Internacional del CIEN: “Me encluyo desde afuera – la brújula que cada uno inventa” (Buenos Aires, 20 de novembro de 2013).
LACAN J. Conférence de Genève sur “Le symptôme” du 4 Octobre 1975. Bloc-notes de La psychanalyse. Genève. 1985, 5, p. 17.
LAURENT, E. Les futurs des spectres de l’autisme. In HALLEUX, B. de (Org.), Quelque chose à dire à l’enfant autiste: Pratique à plusieurs à l’Antenne 110. Paris: Michèle. 2010.
LAURENT, E. La bataille de l’autisme – de la clinique à la politique. Paris: Navarin. 2012.
MALEVAL J-C. L’autiste, son double et ses objets. Rennes: Presses Universitaires de Rennes. 2009.
MALEVAL, J-C. Écutez les autistes! Paris: Navarin. 2012.
MILLER, J-A. A criança e o saber. CIEN Digital. Número 11. Janeiro, 2012.
TAMMET, D. (2006). Je suis né un jour bleu. Paris: Éditions des Arènes. 2007.
TAMMET, D. (2009). Embrasser le ciel immense: le cerveau des génies. Paris: Éditions des Arènes.
TAMMET, D. (2012) L’éternité dans une heure – la poésie des nombres. Paris: Éditions des Arènes.

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