ENTREVISTA V- Maria Lucia Gomes de Amorim – REVISTA VINCULO

PARA AQUECER PARA NOSSA JORNADA NOS DIAS 21 E 22/03, ENCERRAMOS HOJE NOSSA SÉRIE DE 5 ENTREVISTAS CONCEDIDAS POR MEMBROS DO MPASP À REVISTA VINCULO. A TEMÁTICA DAS ENTREVISTAS É O AUTISMO, DIFERENÇAS COM DEFICIÊNCIA, SERVIÇOS DE ASSISTÊNCIA, SAÚDE PÚBLICA E IDENTIFICAÇÃO PRECOCE DE SINAIS DE RISCO.

Entrevista V: Com Maria Lúcia Gomes de Amorim

Maria Lúcia Gomes de Amorim
Psicanalista Psicóloga.

Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro(SBPRJ). Psicanalista de crianças e adolescentes pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Membro atual da gestão do MPASP (2013-2014) Psicóloga da Secretaria de Estado da Saúde (SP) – CAPS Itapeva. Mestre em Psicologia pela USM_SP

1) Como a Sra. Percebe uma pessoa com autismo?
O autismo se refere a um sofrimento psíquico. É um diagnóstico que tem sido usado para as crianças que apresentam dificuldade de perceber o outro como uma pessoa diferente de si. A problemática das pessoas com autismo é a dificuldade com o laço social. Devido à dificuldade de se relacionar com os outros apresenta um comportamento de evitação inclusive em relação a aqueles que cuidam deles. Manifestam preferência por atividades centradas em si (autosensorialidade) e,em decorrência se isolam e apresentamatividades ritualistas e repetitivas evitando assim as trocas interacionais afetivas e sociais. Angustiam-se diante de situações de rotina ou quebra da mesma de forma excessiva. Não respondem com um sorriso o chamado do outro ou mesmo com um sorriso. Não entram em contato intersubjetivo com os outros mesmo as pessoas próximas como pais e cuidadores.
O autismo para ser diagnosticado é feito a partir da observação do comportamento, mas não é uma doença de comportamento que deveria ser ajustada. Entretanto, é necessário frisar que este diagnóstico que muitas das vezes levam os pais ao desespero não pode ser fechado antes dos três anos de idade, segundo a OMS. Isto se deve a importância da plasticidade e da atividade dos neurônios que é bem ativa no inicio da vida. E concluir porum diagnóstico antecipatóriode autismo nas crianças pode trazer efeitos iatrogênicos. Classificar uma criança precocemente pode cristalizar com a ideia de uma impossibilidade de transformação que não é o que acreditamos. Hoje, a Epigenética tem demonstrado a importância do meio ambiente na modificação do DNA e na causalidade das experiências no surgimento de patologias então por isso que fixar precocemente este diagnóstico pode trazer consequências terríveis, impossibilitando que a criança se torne um ser sujeito. Defendemos, entretanto, que as equipes de saúde estejam preparadas para observar sinais precocemente que poderiam a levar uma criança a um recolhimento autístico e intervir terapeuticamente com estes bebês. Pois se encontramos sofrimento psíquico é atuamos pode-se aproveitar o próprio processo de desenvolvimento para transformações e não constituir um quadro patológico.
O que pode se observar em uma avaliação diagnóstica,são diversos tipos de comprometimentos tais como: na interação social a qualidade do vínculo; na linguagem com dificuldades no simbólico e os comportamentos repetitivos e estereotipados.
Um sinal de alerta importante é o interesse por estímulos não sociais que persistem durante o primeiro ano de vida. O bebê não dirige seu interesse para o outro ser humano e muitas das vezes se interessa preferencialmente por objetos inanimados Estes objetos são passivos, sabemos nós, e não podem responder ao bebê, por isso ele se dirige a estes objetos em vez da interação social. O bebê experimenta as intensas sensações originadas do próprio corpo (autosensorialidade) ou pela manipulação repetitiva de objetos inanimados se fechando em si é isto também prejudicará o desenvolvimento da linguagem. O bebê mostra até alguns comportamentos que poderíamos entender como sociais, mas a intersubjetividade encontra-se comprometida. Observa-se que a intencionalidade da ação de encontrar o outro se encontra deficitária eprejudicada. O bebê em seu processo de desenvolvimento mostrará compreensão ao apontar alguma coisa, isto é tem um gesto comunicativo dando tchau, batendo palmas, mas um sinal de aviso é quando há deficiência desta atenção compartilhada. Esta atenção que é uma habilidade social exige que o bebê perceba os três elementos envolvidos, São duas pessoas em interação com um objeto ou uma situação. Pode ser que seja mesmo a voz da mãe ou o olhar. O bebê precisa acompanhar o rosto que se vira, de onde surge a voz, etc.. Esta característica da atenção é fundamental para o desenvolvimento da linguagem.Embora possa ocorrer trocas de olhares e atenção a alguns objetos o que o pode ser observado regularmente é uma apatia ou indiferença ou uma situação aleatória, sem intenção de interagir. O que deveria estar sendo progressivamente conseguido é a interação mais viva e com modulações afetivas. O retraimento é que aumenta.
Outro ponto fundamental é a dificuldade de um brincar criativo. O brincar de esconde-esconde, que indica a presença/ausência isto é o jogo simbólico está ausente ou seriamente prejudicado. Encontra-se um brincar repetitivo e restritivo. A criança ou o bebê brinca em seu retraimento não prestando atenção ao redor.
2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental? O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?

A ideia de deficiência intelectual e de doença mental vem sendo abordada desde muito tempo da seguinte maneira: quando se fala em deficiência intelectual (mental) deixa-se o problema para a ideia de déficit, de falta. Assim, ela pode ser curada, reposta, porém ao falar da doença mental se atrela a ideia de loucura, de atos enlouquecedores que devem ser aprisionados.
Hoje, há uma legislação que protege os incapacitados e os autistas estão dentro desta lei com benefícios na área social e previdenciária.
O autismo é um estado em que a estrutura mental precisar de ajuda para se desenvolver. Sair do retraimento e criar laços sociais possíveis. Falamos de sofrimento psíquico. Embora exista uma legislação enquadrando o autismo na deficiência me parece que a preocupação dos legisladores foi no sentido da proteção de direitos e benefícios sociais e jurídicos frente a alguma incapacidade.
Como o autismo implica em sofrimento psíquico a abordagem deve ser na linha do atendimento para desenvolver as potencialidades do sujeito, deixar advir o sujeito. Por isso nós do Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública (MPASP) defendemos o texto do Ministério da Saúde da Linha de Cuidado para a atenção das pessoas com transtorno do espectro autistas e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS).
Muitas vezes a mídia em relação ao autismo faz um desserviço na medida em queatrela a incapacidades permanentes e não há possiblidade de surgir um sujeito do retraimento. Algumas pessoas podem ter um comprometimento orgânico mais sério, mas de qualquer maneira ali existe uma pessoa em sofrimento e precisamos escutá-la. Como por meio de tratamentos que privilegiam a atenção a singularidade de cada um. A experiência de vida interfere no desenvolvimento e se olhamos as pessoas com estados autístico como incapazes retira-se a possiblidade de vê-las desenvolverem potencialidades que ali estão.
3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?

Este termo vem da necessidade da medicina relacionar em quadros as doenças, tanto para protocolos de atendimento, bem como para atendimentos na previdência social com os benefícios, na área social e na área da justiça em relação a direitos, deveres e incapacidades como cidadãos.
Este termo, transtorno, que apareceu na edição do DSM V como transtorno do espectro autista visou atender a necessidade desses quadros. Eles possuem uma causalidade múltipla e, então, como uma síndrome que foi descrita nos manuais de psiquiatria atuais.
Todavia em termos da Psicanálise olhamos de outra forma. A visão da Psicanálise se dirige a uma pessoa que está em sofrimento e seus pais e não para um “diagnóstico”. As crianças estão ainda em processo de desenvolvimento. Há potencialidades. Seus pais e cuidadores precisam ser ouvidos e esclarecidos de que a criança ainda não está estruturada. Ela está se constituindo como ser singular até a puberdade e adolescência que é outro momento decisivo na constituição do sujeito.
4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?

Sim. As pessoas que apresentam estados autísticos devem ser atendidas. Devem ser escutadas por psicanalistas e toda uma equipe de profissionais de diversas áreas em um projeto de tratamento singular. Precisa-se atender a várias áreas englobadas assim: o desenvolvimento físico, o psíquico, o social (aspectos da cidadania como a escolarização) e aos aspectos da perspectiva do desenvolvimento, o tempo. Isto porque cada um tem uma singularidade e esta deve ser atendida.
O tratamento psicanalítico visará não suprimir, por exemplo, as estereotipias que apresentam, mas dar um sentido a experiência vivida pelo sujeito. Para que assim possa ampliar seus laços sociais e compartilhar da vida com os outros. O atendimento também é extensivo aos pais. É necessário escutá-los e compreendê-los, poismuitas das vezes encontram-se entristecidos e sem esperança de inter-relacionarem com o filho. Assim há a possibilidade der ali encontrar um advir de sujeito. Pais e filhos constituírem a troca afetiva e poderemreconhecer o filho como alguém com afetividade e potencialidades.
A Psicanálise entende que existe possiblidades de transformações e que o desenvolvimento da linguagem, da aprendizagem e psicomotricidade são apropriações realizadas pelo sujeito em sua vontade e desejo. Isto será construído paulatinamente e levará a uma autonomia que possibilitará que ele possa escolher atrelado aos seus interesses o rumo de sua vida como ser vivo. O trabalho psicanalítico é lento e gradual. Acompanha as janelas de pequenas aberturas de contato que a pessoa autista tem. Trabalha com o cuidado de não ser invasivo para não ocorrer um movimento de novo retraimento. Procura desenvolver o estar no atendimento convocando a sair do isolamento e propondo situações de prazer no estar com o outro, com a troca afetiva. Modificar o modo dele, pessoa com manifestações autísticas, a estar no mundo, sair do retraimento para um mundo de relações onde o brincar passe a ser criativo eque seja prazeroso o compartilhar com o outro as experiências de vida.

5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram no modelo escolar?
A medicalização entrou na pauta do, dia a dia, da nossa sociedade. Isto se deve a uma politica da indústria farmacêutica para os remédios que atendem a psiquiatria, que observou bem a dificuldade dos seres humanos aceitarem que a vida por si só tem frustrações e dor mental. O poder se sentir triste diante de uma perda para alguns é difícil de suportar e a medicação vem com o envoltório da promessa de uma felicidade total e permanente.
As crianças, hoje, tem pouco espaço para brincar, se expressar. Existe uma preconcepção que devem ser preparadas para a competição neste mundo contemporâneo. Então devem se ocupar o tempo todo e há falta de tempo para brincar e imaginar. Então, aparecem sintomas psíquicos que são medicados para entrarem no padrão aceito pela sociedade – o bom menino. Momentos de angústia que são importantes para o processo de desenvolvimento e criação deverão ser banidos.
A medicalização também produz, para algumas pessoas, diagnósticos que podem levá-los a ter benefício. Ejá que os designando como incapazes isto também prejudicaria a evolução de uma “cura” pois, ser doente traz benefícios sociais e previdenciários e muita das vezes retira do sujeito sua responsabilidade e participação, esta, está fora, em uma causa orgânica..
Os transtornos (doenças) mentais têm causas que podem ser multifatoriais, tanto biológicas, neurobiológicas, psicológicas, sociológicas, mas há uma prevalência a exaltar que seria uma deficiência cerebral que pode ser “corrigida” através de remédios somente. E os trabalhos de prevenção a esses transtornos em termos de sociedade poderão ser abandonados direcionando para a indústria farmacêutica a gestão em vez da prevenção e atenção primária em saúde.
Medicalização, exagerada pode transformar uma timidez ou uma tristezaem um quadro patológico que necessitará de tratamento químico e perde-se a noção de um sujeito em sofrimento, em angustia.
Existe um risco grave na medicalização dos menores. Seu desenvolvimento ainda não está completado e as pesquisas ainda não são conclusivas, muitas delas realizadas com pacientes adultos. As crianças e adolescentes ainda estão se constituindo e o efeito destas substâncias posteriormente ainda precisa ser mais bem avaliado. A medicalização é feita sobre os sintomas e não vai modificar a estrutura e modo de ser no mundo. O que se vê é uma incapacidade de conviver com alguns sintomas que as crianças e adolescentes manifestam. Talvez a sociedade e o sistema educacionalpudessem abordar o que ocorre que precisamos tanto usar de psicofármacos nestas pessoas. Queremos pessoas que pensem ou pessoas adestradas?
O sofrimento psíquico necessita para ser superado e ser transformado em uma dor aceita inerente ao ser humano finito no universo de um entendimento dado pelo próprio sujeito em seu mundo psíquico.

(FONTE: http://vinculorevista.wordpress.com/)

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