ENTREVISTA III- Mariângela Mendes de Almeida – REVISTA VÍNCULO

PARA AQUECER PARA NOSSA JORNADA NOS DIAS 21 E 22/03, INICIAREMOS UMA SÉRIE DE 5 ENTREVISTAS CONCEDIDAS POR MEMBROS DO MPASP À REVISTA VINCULO. A TEMÁTICA DAS ENTREVISTAS É O AUTISMO, DIFERENÇAS COM DEFICIÊNCIA, SERVIÇOS DE ASSISTÊNCIA, SAÚDE PÚBLICA E IDENTIFICAÇÃO PRECOCE DE SINAIS DE RISCO.

Entrevista III: Com Mariângela Mendes de Almeida

Mariângela Mendes de Almeida
Coordenadora do Núcleo de Atendimento a Pais e Bebês do Setor de Saúde Mental do Depto de Pediatria da UNIFESP
Membro da Clínica 0 a 3 do Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise
Membro do Instituto da Família
Docente do Instituto Sedes Sapientiae

1) Como a Sra. percebe uma pessoa com autismo?
Nosso dia a dia se desenvolve a partir das relações que estabelecemos com familiares e pessoas próximas. Laços de amizade, transmissão de experiências de uma geração para a outra, sentimentos de afeição, também preocupações, contrariedades, críticas e diferenças ao compararmos nosso próprio jeito e nossas idéias com os de outros, orientam nossa vida. Queremos fazer parte de um grupo maior, encontrar identificações, fazer planos, temos ideais a longo prazo. Para isso, desde bebê, na relação com nossos cuidadores, vamos integrando aos poucos as maneiras como percebemos as coisas com nossos vários sentidos, o que olhamos tem um cheiro, uma textura, um gosto, uma forma, um nome, uma função e pode se conectar a outras experiências e situações criando uma rede cada vez mais ampla em que os vínculos com as pessoas significativas à nossa volta são os organizadores centrais. Para uma pessoa com autismo, em seus vários graus, os maiores interesses não se centram nas relações afetivas e nos aspectos sociais da experiência. Sensações e conhecimentos podem ser vivenciados de maneira isolada, intensa, sem a integração usualmente construída nestas experiências vinculares e sem mediação espontânea pelo significado compartilhado que isto possa ter para si e para outros no contexto social. O bem estar decorre de ações de descarga motora ou repetições autoestimulatórias que buscam criar um senso de equilíbrio interno frente ao que parece muitas vezes ser sentido como intolerável sobrecarga. No autismo ocorrem dificuldades relacionadas à capacidade de estabelecer vínculos, desenvolver linguagem comunicativa e é comum a manifestação de estereotipias (repetições gestuais ou verbais).
2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental?
Muitas vêzes, as situações atípicas (deficiência e doença) são percebidas em função de seus aspectos práticos e resultantes expressos na conduta. Limitações semelhantes na prática podem envolver dificuldades internas diferentes que requerem abordagens terapêuticas diversas. A doença mental pode interferir na capacidade do indivíduo de fazer uso de suas habilidades intelectuais, mas centrar as abordagens terapêuticas prioritariamemte no treino de aquisições pode deixar de lado aspectos emocionais importantes que podem estar contribuindo para a não utilização espontânea e estável de tais competências. Conhecer mais a fundo cada condição e cada indivíduo em sua própria subjetividade pode ajudar. A mídia pode ter um papel importante não generalizando, informando as diferenças e necessidades específicas, aprofundando além do resultado prático, para que este também possa ser, de fato, mais efetivo e duradouro.
O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?
O autismo é muitas vezes retratado de forma romanceada, mistificada, por ser uma condição intrigante para os que convivem e trabalham com ela. Até porque é uma condição em que aspectos cognitivos e ilhas de habilidades e sensibilidade exacerbada podem se manter muito ativas em detrimento de um equilíbrio e utilização compartilhada para fins de comunicação e sentido social comum contextualizado. Apesar dos muitos avanços em pesquisas e no trabalho clínico terapêutico com o autismo, apontando para aspectos multifatoriais na gênese e nos cuidados terapêuticos necessários, que tem felizmente se iniciado cada vez mais cedo para pais e crianças (muitas vezes ainda bebês), há muito ainda por se conhecer e se disseminar junto à comunidade e profissionais quanto à detecção e tratamento. Nem sempre o autismo é retratado com realismo, aparecendo muitas vezes como uma condição especialmente mágica e atraente, que não corresponde às dificuldades e ao sofrimento enfrentado no dia a dia pelas famílias que convivem com esta questão.
3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?
Trata-se de um termo que coloca o autismo (transtornos do espectro do autismo) como uma das condições humanas que requerem estudo, pesquisa e tratamento na área da saúde e que, como é bem verdade, apresenta comprometimentos significativos para o desenvolvimento do indivíduo (diferente de problemas leves, transitórios ou distúrbios menos severos). Neste sentido, tem sua utilidade, porém não se mostra útil como um rótulo estigmatizador (a pessoa que tem transtorno como “louca”, “doente mental”, o transtorno à frente da pessoa e de suas caracteráticas pessoais e singulares. )
4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?
Apesar de algumas visões do autismo como uma forma de ser frente a outras possíveis e uma maneira própria de expressão do sujeito, acompanhamos em nossa experiência clínica o sofrimento psíquico de pais, famílias e indivíduos com autismo em que a dificuldade de contato traz aflições, angústia e desiquilíbrios no convívio. Nesse sentido podemos falar em tratamento como abordagem terapêutica para favorecer a integração psíquica e social do indivíduo e a qualidade de vida emocional do grupo que convive com tais dificuldades.
5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?
A terapêutica química (administração de medicação) pode ser importante em casos em que alguns sintomas autísticos, como por exemplo tendência a estereotipias, ritualizações, agitação motora ou aspectos neurológicos associados, prejudicam ou impedem o contato, podendo interferir na capacidade de concentração e aprendizagem. É importante, entretanto, que a medicação, se necessária, seja parte de uma rede de atendimentos envolvendo também outras áreas de cuidado (psicanalista/psicoterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, musicoterapeuta, psicopedagogo, suporte aos pais e irmãos/família). Não se mostra útil a medicação para “acalmar/enquadrar” as manifestações autísticas como única forma de lidar com a dificuldade de compreendê-las e acolhê-las.
Obs: Existem várias iniciativas de grupos de profissionais levando em conta estas idéias, instituições trabalhando com detecção, intervenção precoce e aborgagens interdisciplinares, representadas e agrupadas no Movimento Autismo Psicanálise e Sáude Pública (MPSP).

(FONTE: http://vinculorevista.wordpress.com/)

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