Carta aberta ao Fantástico e ao Dr. Dráuzio Varella sobre a série Autismo: Universo Particular

São Paulo, 21 de setembro de 2013.

Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública

Carta aberta ao Fantástico e ao Dr. Dráuzio Varella sobre a série Autismo:
Universo Particular

Nós, integrantes do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP),
que reúne profissionais (psiquiatras, psicólogos, pediatras, neurologistas, psicanalistas,
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, acompanhantes terapêuticos,
psicopedagogos) que trabalham no campo da saúde mental inseridos em diversas
instituições clínicas e acadêmicas disseminadas pelo Brasil, na rede pública e privada,
assistimos a série “Autismo: Universo Particular”, apresentada pelo dr. Dráuzio Varella
no Fantástico, e vimos, por meio desta, apontar o que consideramos como faltas éticas
e desconhecimentos científicos cometidos pelo programa.
Buscamos assim contribuir para com o esclarecimento à população,
favorecendo que programas jornalísticos e de divulgação científica possam trazer
informações sérias e efetivas sobre o autismo e seu tratamento, uma vez que se trata
de um tema da maior relevância para a saúde pública atual.
Seguem alguns pontos a destacar:
1. Da forma como foi conduzida, a série praticamente posiciona-se contra o SUS;
ao dizer que “nada funciona”, resulta em difamação e em uma demonstração de total
desconhecimento das inúmeras experiências de sucesso no tratamento de pessoas
com autismo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e outros órgãos da rede
pública de saúde e nas instituições a ele conveniadas que têm produzido relevantes
trabalhos nas terapias de autismo no Brasil.
Isso acontece em um momento crucial para o tratamento das pessoas com
autismo e seus familiares, já que estão sendo definidas políticas públicas fundamentais
destinadas a nortear o tratamento e o diagnóstico nos equipamentos do SUS (como as
lançadas no documento Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno
do Espectro Autista e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único
de Saúde/SUS – Ministério da Saúde, abril, 2013),
2. A série apresentou uma visão reducionista do autismo, especialmente quanto ao
seu diagnóstico e tratamento, ignorando as contribuições clínicas existentes, entre elas,
as advindas da concepção psicanalítica em equipe interdisciplinar desenvolvidas há
mais de 70 anos.
3. A série demonstrou desconhecimento acerca dos relevantes efeitos clínicos da
detecção e intervenção precoce ao apresentar o autismo como “incurável”. Os
progressos científicos produzidos interdisciplinarmente no campo da primeira infância
no diálogo entre psicanálise e neurociência têm revelado que os primeiros meses de
vida se caracterizam por uma extrema plasticidade neuronal, configurando
possibilidades de recuperação orgânica. Os progressos científicos demonstram também
que não nascemos com nosso organismo pronto, já que tanto a formação da
interconexão neuronal quanto a manifestação de nossa carga genética dependem de
fatores ambientais (epigenéticos), entre eles a relação com as outras pessoas como
fator fundamental para os humanos.
4. A série é questionável no que se refere à exposição das crianças. Para um
autista, esse nível de invasão recrudesce sua posição de exclusão, e nada justifica tal
atitude.
É lamentável que um programa tão assistido e com um tema que exige tanto
esclarecimento público não tenha sido capaz de apresentar os aspectos básicos para a
abordagem de um problema de saúde premente e complexo como o autismo. Ao privar
o telespectador de informações valiosas e necessárias – e conduzi-lo a uma visão
comprometida e empobrecedora –, o programa produz ainda mais sofrimento nas
famílias.
Sobre o diagnóstico precoce
A importância do diagnóstico precoce foi colocada de maneira distorcida pelo
programa. Não há dúvidas em relação à diferença que o diagnóstico precoce pode
produzir no tratamento, favorecendo-o, e toda a comunidade científica está de acordo
em relação a isso. Mas considerar, como foi feito no programa, que nos Estados Unidos
o estado da arte está mais evoluído porque o diagnóstico de autismo é realizado antes
dos três anos é um desserviço. Documento produzido pelo Ministério da Saúde em abril
deste ano – Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do
Espectro Autista e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de
Saúde/SUS – e que segue recomendação da Organização Mundial de Saúde, afirma
(pág. 50): “Por apresentarem mais sensibilidade do que especificidade é
oficialmente indicado que o diagnóstico definitivo de Transtorno do Espectro
Autista (TEA) seja fechado a partir dos três anos, o que não desfaz o interesse da
avaliação e da intervenção o mais precoce possível, para minimizar o comprometimento
global da criança (Bursztejn et al, 2007, 2009; Shanti, 2008, Braten, 1988, Lotter,
1996)”. Antes dessa idade não se deve fechar o diagnóstico, pois ainda se trata de um
bebê em pleno processo de constituição.
Na página 54, o mesmo documento afirma: “Embora os primeiros sinais de
Transtornos do Espectro do Autismo se manifestem antes dos três anos, é a partir
dessa idade que um diagnóstico seguro e preciso pode ser feito, pois os riscos de uma
identificação equivocada (o chamado falso-positivo) são menores.” Até lá, trabalha-se
com critérios cientificamente comprovados (por pesquisas referendadas e validadas no
circuito acadêmico) de Risco Psíquico para o Desenvolvimento e Sofrimento.
Promover e propagandear em um programa televisivo de cunho jornalístico o
diagnóstico fechado de uma patologia antes do tempo recomendado pode ter o efeito
de que se deixe de investir em uma possibilidade de mudança. Essa é uma postura
irresponsável por produzir efeitos iatrogênicos, para bebês e crianças que ainda estão
em pleno processo de constituição e que, portanto, não têm um destino definido,
levando ao risco de produzir uma epidemia de autismo
Trabalho clínico interdisciplinar de referencial psicanalítico
Outro aspecto que ficou muito aquém do desejável foi a necessidade de uma discussão
interdisciplinar dos casos e a consideração da multiplicidade de fatores correlacionados
ao autismo que não se limitam a aspectos orgânicos (de genética, lesões ou
deficiências), levando o telespectador a uma visão reducionista dando a entender que
no autismo haveria uma única causa em jogo e uma única forma de tratamento: a
terapia comportamental, como caminho autossuficiente.
Para tratar de crianças e adultos com autismo, não basta descrever que
observam o mundo de forma fragmentada; é preciso dizer como é possível ajudá-los a
encontrar saídas para esse estado. Tentar “ensinar” sentimentos, como observamos na
série, também não resolve. É preciso ajudar o paciente a fazer uso das palavras a fim
de representar seus afetos para poder compartilhá-los com as outras pessoas.
O trabalho clínico interdisciplinar de referencial psicanalítico abre inúmeras
possibilidades para que cada pessoa com autismo possa construir laços sociais,
partilhar a celebração de viver e contribuir para a sociedade. Também permite que os
pais, muitas vezes desalentados pelo isolamento de seus filhos, possam ampliar a partir
das intervençoes terapêuticas os momentos de troca, contato e reconhecimento mútuo.
Favorece o processo de crescimento, desenvolvimento e constituição psíquica do filho e
possibilita que as aquisições de linguagem, aprendizagem e psicomotricidade sejam
efetivas apropriações do filho com as quais ele possa circular socialmente (na familia
ampliada, na escola, na cidade), não de um modo simplesmente adaptativo, mas guiado
fundamentalmente pelos seus interesses singulares. Quando realizado com bebês, ,
permite intervir a tempo, reduzindo enormemente e, em alguns casos, possibilitando a
remissão de traços de evitação na relação com o outro.
Questão educacional
No que tange à educação e escolarização, os integrantes do MPASP, a partir de
inúmeras experiências clínicas de inclusão bem-sucedidas, ressaltam a importância de
propiciar, sempre que for possível e benéfico para a criança, sua inclusão nas escolas
regulares, ou seja, o diagnóstico de autismo não deve configurar per se indicação de
escola especial, sob o risco de incorrer numa visão segregacionista.
Uma chance perdida
Pelo exposto acima, o Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública
(MPASP), do qual fazem parte cerca de 500 profissionais que atuam em mais de 100
instituições nacionais (públicas, privadas e não governamentais), considera que a série
Autismo: Universo Particular foi um desserviço, uma chance perdida de alcançar
maciçamente o público leigo com informação de qualidade.
Mais lamentavel ainda é que a produção desse programa tenha ignorado essas
informações enviadas pelo MPASP, enquanto o programa ia ao ar, dispostos que
estávamos e estamos a colaborar com a informação nesse âmbito e ampliar a visão
reducionista exposta pelo programa.
O MPASP se coloca à disposição dos meios de comunicação para apresentar
caminhos possíveis de tratamento que não se restringem a treinamentos e possibilitam
ampliar e viabilizar os modos singulares de ser das pessoas com autismo.

Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública/MPASP

Informações: https://psicanaliseautismoesaudepublica.wordpress.com/about/

Instituições participantes Universidades:FEUSP,FMUSP, Grupo de estudo sobre a criança (e sua linguagem) na clínica psicanalítica – GECLIPS/UFUMG, IPUSP, PUC /RJ, Psicologia PUC /SP, Fono PUC/SP, UERJ, UFBA – ambulatório infanto-juvenil da Residência em Psicologia Clínica e Saúde Mental do Hospital Juliano Moreira/UFBA-SESAB, UFMG Laboratório de Estudos Clínicos da PUC Minas, UFPE, UFRJ, UFSM, UnB, Unesp Bauru, UNICAMP, Univ. Católica de Brasília, Setor de Saúde Mental do Departamento de Pediatria da UNIFESP, Centro de Referência da Infância e da Adolescência – CRIA/UNIFESP, DERDIC/PUCSP, Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), UNIFOR. Instituições de Psicanálise: ALEPH – Escola de Psicanálise, Associação Psicanalítica de Curitiba- APC, Circulo Psicanalítico MG – CPMG, Círculo Psicanalítico de Pernambuco – CPP, EBP (Escola brasileira de psicanálise), Escola Letra Freudiana, Espaço Moebius/BA, Laço Analítico, Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil (EPFCL-Brasil), Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo (FCL-SP), Rede de Pesquisa sobre as Psicoses do FCL-São Paulo, Rede Brasil Psicanálise Infância/ FCL, IEPSI, Associação Psicanalítica de Porto Alegre -APPOA, Instituto APPOA, IPB ( instituto de psicanálise brasileiro), Intersecção Psicanalítica do Brasil, Grupo que estuda a clinica com bebês e as intervenções precoces da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Grupo de Estudos e Investigação dos TGD da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (SEDES), Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto SEDES, Departamento de Psicanálise de Crianças do Instituto SEDES, Curso de Psicossomática Psicanalítica do Instituto SEDES, Núcleo de Investigação Clínica Hans da Escola Letra Freudiana, Sigmund Freud Associação Psicanalítica/RS, GEP/Campinas, NEPPC/SP, Instituto da Família –IFA/SP, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Invenção Freudiana – Transmissão da Psicanálise. Centros de atendimentos não governamentais: Ateliê Espaço Terapêutico/RJ, Attenda/SP, Centro de Atendimento e Inclusão Social, CAIS/MG, Carretel – Clínica Interdisciplinar do Laço/SP, Carrossel/BA, Centro da Infância e Adolescência Maud Mannoni CIAMM, CERSAMI de Betim, Centro de Estudos, Pesquisa e Atendimento Global da Infância e Adolescência – CEPAGIA/Brasília/DF, Clínica Mauro Spinelli/SP, Clube/SP, CPPL – Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem, Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem de Recife – CPPL, Escola Trilha, ENFF, Espaço Escuta de Londrina, Espaço Palavra/SP, GEP-Campinas, Grupo Laço/SP, Grupo de Pesquisa CURUMIM do Instituto de Clínica Psicanalítica/RJ, Incere, Instituto de Estudo da Familia INEF, Insituto Langage, Instituto Viva Infância, LEPH/MG, Lugar de Vida, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, NIIPI/BA, NINAR – Núcleo de Estudos Psicanalíticos, NÓS – Equipe de Acompanhamento Terapêutico, Projetos Terapêuticos/SP, Trapézio/SP, Associação Espaço Vivo/RJ. Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae/SP. Centros de atendimentos do governo: Caps Pequeno Hans/RJ, Capsi Guarulhos/SP, Capsi-Ipiranga/SP, Capsi-Lapa/SP, Capsi Mauricio de Sousa/Pinel-RJ, Capsi Mooca/SP, CAPSI-Taboão/SP, CAPSI de Vitória, CARM/UFRJ, NASF Guarani/SP, UBS Humberto Pasquale/SP, Centro de Orientação Médico-Psicopedagógica – COMPP/SES-DF, Capsi COMPP/SES-DF, Capsi Campina Brande/PB. Associações:ABEBÊ – Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê, ABENEPI/Maceió, ABENEPI/RJ, ABENEPI/BSB, Associação Metroviária do Excepcional AME, Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, CRP/SP (conselho regional de psicologia). Hospitais: Centro Psíquico da Adolescência e Infância da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (CePAI/FHEMIG), CISAM/UPE – Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros – Universidade de Pernambuco, HCB (Hospital da Criança de Brasília), Serviço de psicossomática e saúde mental do Hospital Barão de Lucena -HBL/ Recife, Hospital Einstein, IEP/HSC Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Santa Catarina, Hospital Pinel, Hospital das Clínicas – Universidade de Pernambuco. Revista: Revista Mente e Cérebro. Grupo de pesquisa: PREAUT BRASIL, Grupo de pesquisa IRDI nas creches.
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28 comentários sobre “Carta aberta ao Fantástico e ao Dr. Dráuzio Varella sobre a série Autismo: Universo Particular

  1. Desserviço faz a abordagem psicanalitica, em especial lacaniana, para nós, pais de crianças com TEA. Falam de autismo com o viés da psicose, e citam o SUS como uma alternativa muito eficaz…Ora, perguntem a um psicanalista que tenha um filho com autismo se ele arriscaria a tratá-lo com psicanálise. Façam uma pesquisa com os pais que passaram pela psicanálise e pela abordagem comportamental e comparem as opiniões. Sejam menos subjetivos! Reducionistas são vocês!
    Tampouco achei o programa perfeito, mas se tivessem acatado a solicitação da MPASP seria um desastre completo.

  2. Como mae de um asperger que teve diagnostico muito tardiamente e sofre c as consequencias da dificuldade de encontrar um local apropiado que o acolha para ser atendido de forma adequada, venho dizer que a serie do fantastico, apesar de alguns equivocos, foi muito bem aceita pelos envolvidos: nós, os pais (acompanhem nas redes sociais as pagina dos pais). O maior sofrimento nosso é com o total desconhecimento da sociedade em geral e com a rejeicao que sofremoa como familia. E eles contribuiram para mostrar a existencia de um problema. Para nos, nada de novo foi apresentado. Mas agora muitos mais sabem que o autismo existe, que se apresenta de varias dormas e que é dificil sim. Nossos filhos sao super expostos no dia a dia em uma sociedade intolerante. Acabo de procurar um caps. Para que ele fosse aceito tive que mudar o periodo da escola dele (o que vai deixa-lo infeliz), pq o caps tem mais atividades de manha. De qualquer forma espero que o ajude, caso seja aceito. Acho que ao invés de acusar o programa tentem contribuir, primeiro com o básico, e depois com o especifico. AGREGAR É MELHOR QUE DIVIDIR. A coragem que tive de procurar efetivamente um caps veio depois do programa. Antes procurava entidades privadas que ou nao tinham vaga, ou nao tinham experiencia de lidar com autistas.

  3. Estou muito interessada em saber mais a respeito da síndrome de Asperger! Diagnosticada numa pessoa adulta já com 42 anos.Por email posso passar mais detalhes.Grata
    Maria Auxiliadora Linhares Fernandes

  4. Gostaria de conhecer os casos de sucesso do CAPS em relação ao autismo. Por gentileza, mostre-me dados científicos comprobatórios sobre essa afirmação e depois me dê o endereço desses “CAPS”
    Minha filha foi atendida em CAPS por dois anos e a equipe interdisciplinar era composta por farmacêuticos, assistentes sociais e enfermeiros com o objetivo de trabalhar sua intensa ecolalia e comportamento agressivo. Em resposta às minhas reclamações e a de outras mães o CAPSi respondia: “Qualquer pessoa pode trabalhar comunicação e comportamento, não precisa ser fonoaudiologa para trabalhar dificuldades de linguagem, muito menos psicólogo para trabalhar afeto, comportamento e subjetividade”. O Cremesp fez um estudo sobre os CAPS no Brasil e, por meio de pesquisa científica, condenou esse equipamento de saúde por várias irregularidades. Se quiser eu envio o estudo.
    Patricia Lorena

  5. Agradeço muito o envio da reportagem pelos esclarecimentos que presta à comunidade em geral.
    Silvia Szterling

  6. Como autista asperger que NUNCA frequentou salas de aula especiais, posso afirmar com convicção que vi algumas coisas – e apenas algumas – dos tradicionais programas que a tv aberta brasileira transmite. Na maioria dos casos pela tv aberta apresentados, jamais me reconheci, me vejo como que distante em praticamente 90% da caricatura que nossa tv aberta pinta acerca da minoria a qual pertenço. A maioria dos programas televisivos aliás passam a idéia de que nós autistas somos débeis ou de que temos dificuldade em compreender as coisas, o que nem sempre é verdade. Ter uma maneira própria de compreender as coisas – diferente de um neurotípico – não é ‘não conseguir compreendê-las’. Acho que nesse ponto – e em outros – a série deixou muito a desejar (embora de modo geral a curti por ter visto vários amigos virtuais de militância autista mostrados na série em questão). Estou com o MPASP e espero sincera e honestamente que a Rede Globo de Televisão analise as propostas de colaboração do MPASP com o devido respeito que o referido órgão médico merece.

    Atenciosamente, Jonathan ‘Hamelin’ Malavolta, enxadrista, escritor e músico, 36 anos, diagnosticado aos 10 como autista comunicativo de grau -3 (creio que seja autismo leve, científicamente falando; se estiver errado, não hesitem em me corrigir).

    1. Errata: “… que vi algumas coisas – e apenas algumas – dos tradicionais programas que a tv aberta brasileira transmite como fazendo parte de meu espectro específico.”

      Desculpas pelo ato falho.

  7. Eu professora de Ed. especial,atuando no município de Diadema….vos convido a conhecerem tb um pouco mais sobre as boas práticas na escola pública com essas crianças….
    Mostrar o quanto elas se beneficiam da inclusão quando esta é feita com responsabilidade….envolvendo:Família,Saúde e Educação
    Grata, Andrea

  8. O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP) tem estado na luta para esclarecer vários equívocos midiáticos e no SUS, bem como apresentar o trabalho da psicanálise com autismo. Neste texto, coisas importantes como pensar no comportamento dos pais para com os filhos, afastar-se de qualquer prática segregacionista e também “viabilizar os modos singulares de ser das pessoas com autismo” (trecho do texto). São assuntos extremamente importantes e eu fico feliz em vê-los sendo tratados, principalmente por estudiosos de uma teoria que estuda, basicamente, os processos “intrapsíquicos”.
    O que eu não fico feliz é com afrontas infundadas. O MPASP frequentemente fala sobre equipe multidisciplinar, mas sempre ataca diretamente a “terapia comportamental”, dizendo que “não resolve”. Neste texto não foi diferente.
    Eu entendo que alguns psicanalistas estejam alarmados com o desenvolvimento da Análise do Comportamento e com a cultura de uma ciência natural do ser humano crescendo no Brasil. Entendo também que isso tem reflexos diretos no mercado de trabalho, mas dizer que a Análise do Comportamento é ineficaz, ou tratar como “relações sociais” um campo estritamente psicanalítico é uma ignorância ou desonestidade intelectual grave, para um movimento que quer requerer seu espaço numa equipe multidisciplinar e na saúde pública. Sobre ser “ineficaz”, é interessante que a comunidade de analistas do comportamento prezam por estudos com o máximo de pessoas possível, usando um método bem estipulado e considerando o máximo de variáveis em jogo na pesquisa, enquanto o texto trata de “inúmeras experiências clínicas de inclusão bem-sucedidas”.
    Eu acompanho o blog justamente para ver a visão de quem, teoricamente, entende de verdade de psicanálise, para correr menos risco de sair por aí falando besteira sobre uma área que não estudo com tanto gás.
    Espero que não seja novidade para vocês, mas analistas do comportamento têm um trabalho bonito, cujos efeitos vão além de “modificar o comportamento da criança”. Mais do que fazer a criança fazer o que se pede, a AC ensina autonomia, afetividade, formas eficientes de se comportar.
    Apoio a luta de vocês, mas tomem cuidado para que esse movimento não seja um desserviço à Análise do Comportamento. Vocês estão atacando espantalhos.

  9. mas hoje nesse sistema de governo não conseguimos fazer exames de imediato a fila de espera é grande,até para detectar dislexia pelo sus não conseguimos.

  10. Também fiquei indignada qdo ouvi q a única alternativa era a terapia comportamental!

  11. Mesmo com esta nota publicada, ainda assim não acho que a série Autismo: Universo Particular foi um desserviço a sociedade, na verdade mesmo com tantos anos de estudos sobre o autismo, é muito pouco as informações que se tem a respeito e na maioria dos casos acredito que o autismo só é diagnosticado tardiamente o que dificulta o tratamento de pessoas com autismo. Quanto ao sistema publico de saúde o SUS, desconheço, pelo menos em minha cidade programas que acolha essas crianças e seus familiares com acompanhamento com uma equipe multidisciplinar ( terapeutas ocupacionais,psicólogos, psicopedagogos, psiquiatra) entre outros para dar o suporte necessário nesses casos, principalmente os casos mais graves do transtorno.

  12. Autismo no Fantástico
    Postado em 8 de outubro de 2013 por fg1com Sem Comentários
    Carta Aberta ao Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública, em resposta ao Artigo Autismo no Fantástico: um desserviço à população

    Como membros da comunidade da principal associação de Análise do Comportamento no Brasil, a ABPMC (Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental) e, fundadoras do Grupo Gradual – Grupo de Intervenção Comportamental, especializado no tratamento de indivíduos com desenvolvimento atípico, consideramos apropriado um posicionamento público sobre a série de reportagens do programa Fantástico, da Rede Globo, intitulado “Autismo: Universo Particular”.

    Refletimos que o programa não tenha sido exatamente um desserviço para a população, em geral, já que considerando o tempo de veiculação total pode-se ressaltar que foi possível uma abordagem geral e rápida sobre tema do Autismo, que é complexo essencialmente falando, pois abrange uma ampla gama de comportamentos e de relações de cada criança, em questão, com o mundo que são multi-determinados, levando em conta causas epigenéticas, ontogenéticas e culturais. Porém, em uma abordagem rápida e geral, parece que se optou por passar para a população as principais características da síndrome, as possibilidades de inserção de diferentes casos dentro do espectro do Autismo, as principais dificuldades da população ao procurar tratamento na saúde pública, ao realizar a tentativa do processo de inclusão nas escolas e, também, em apontar o tratamento comportamental como referência de tratamento baseado em evidência.

    Ao mesmo tempo nos solidarizamos com o MPASP e com todo profissional, que de forma séria e embasada cientificamente vem trabalhando e conseguindo resultados. Também alguns pontos trazidos na reportagem, sobre a própria visão da Intervenção Comportamental oferecida, deixam a desejar e podem confundir o público sobre seu alcance e fundamentação teórica. Isso pode ter ocorrido, pois parece não terem sido consultados os especialistas que representam essa abordagem.

    Do nosso ponto-de-vista muito poderia ser detalhado sobre particularidades de um tratamento de intervenção com base analítico-comportamental para o transtorno do espectro do autismo, como por exemplo, a noção básica de que o tratamento é essencialmente individualizado, que além de ser intensivo (em número de horas semanais) precisa ser compreensivo em termos de abranger, de forma multidisciplinar com áreas afins da psicologia, várias áreas de desenvolvimento da criança (exemplos: comportamento verbal, brincar, atividades de vida diária, socialização e possíveis adaptações curriculares) para ser realmente efetivo.

    Com certeza esses detalhes de procedimentos analítico-comportamentais poderiam ser abordados minuciosamente a partir de uma consulta com Analistas do Comportamento que atendem diretamente essa população e, também, desenvolvem trabalhos de pesquisa constantemente, com coleta de dados, focados tanto na pesquisa básica quanto aplicada, sustentando uma prestação de serviço analítico-comportamental baseado em evidência (Volkmar, F. R., Lord, C., Bailey, A., Schultz, R. T., Klin, A., 2004; Pheula, G. F, & Isolan, L. R, 2007; Virués-Ortega, 2010). Porém, vale refletir, mais uma vez, que parece que se optou por fornecer informações genéricas sobre o tratamento comportamental, que não é a forma mais detalhada e cuidadosa de fornecer essas informações, mas que, em nossa reflexão propiciou uma possibilidade de conhecimento geral sobre o espectro do autismo e um dos tratamentos indicados.

    Quanto ao julgamento e seleção de que qual(is) prática(s) de tratamento e/ou intervenções pode(m) ser mais eficiente(s) opinamos que, além dos debates e submissões de trabalhos e resultados de tratamento e pesquisa em fóruns especializados do tema, que os pais de criança com desenvolvimento atípico, nos referindo mais especificamente ao espectro do autismo, possam tecer suas considerações acerca desse assunto e mobilizarem-se tanto para a criação e aprovação de leis que incluam, de fato, esses indivíduos na vida escolar e profissional e participem das decisões e discussões sobre qual(is) tratamento(s) deve(m) ser disponibilizado(s) na rede pública e o quais as vantagens em adotar um tratamento baseado em evidência ao longo da vida de um indivíduo do espectro do autismo.

    Os Analistas do Comportamento, representados por nós em nome da ABPMC, também estão à disposição para debater seus dados e esclarecer ainda interpretações errôneas sobre sua posição teórica e prática.

    Grupo Gradual
    Cintia Guilhardi, Claudia Romano e Leila Bagailo

    Referências Bibiográficas

    Pheula, G. F.; Isolan, L.R. Psicoterapia baseada em evidências em crianças e adolescentes. Revista Psiquiatria Clínica, 34 (2); 74-83, 2007.

    Virués-Ortega, J. Applied Behavior Analytic Intervention for Autism in Early Childhood: Meta-analysis, Metaregressionand Dose–response Meta-analysis of Multiple Outcomes. Clinical Psychology Review. 2010.

    Volkmar, F. R.; Lord, C.; Bailey, A.; Schultz, R. T.; Klin, A. Autism Pervasive Developmental Disorders. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 45, 135-170, 2004.

    1. Prezados
      Em primeiro lugar gostaríamos de agradecer a carta de vocês, que achamos muito bem vinda e quem sabe possa ser uma abertura para um debate clinico e cientifico, afinal, se existe uma concordância universal em relação ao transtorno do espectro do autismo, é exatamente o seu caráter multifatorial e por isso merece muitos estudos e debates.
      Os pesquisadores sérios e comprometidos com a ciência não titubeiam quanto a essa informação, publicam seus resultados com muita tranquilidade, a ponto de ser possível a afirmação “autista: a cada um seu genoma” (Ansermet et Giacobino, 2013.). Por isso em se tratando de uma afecção multifatorial, aspectos genéticos, neurológicos, emocionais, afetivos, estruturais e cognitivos, indicam que não se pode pensar em abordagens únicas ou tratamentos universais para as pessoas com autismo. Se as ciências biológicas, que tanto buscam a universalidade para o autismo, afirmam baseadas na evidencia de suas pesquisas cientificas, que não há até o momento nenhuma correlação em seus achados etiológicos, por que essa insistência em recomendar apenas um tipo de atendimento ou abordagem? Por isso ousamos afirmar em nossa “carta aberta ao fantástico” que, além de nada cientifico, o programa prestou um desserviço à população desinformando-a sobre as diversas abordagens para essa afecção multifatorial.
      O Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública surgiu da necessidade de defendermos a multifatorialidade e, consequentemente, que a pluralidade de abordagens possa ajudar a pessoa com autismo e suas famílias, esse momento se mostrou oportuno quando algumas instituições de atendimento em São Paulo iriam ser sumariamente fechadas porque não contavam em seus quadros com profissionais da terapia analítico comportamental. E nós temos certeza que profissionais sérios, como vocês e muitos outros, são contra esse tipo de arbitrariedade. Mas o fato é que ha 30/40 anos atrás nenhuma abordagem conhecia bem as especificidades do autismo e por isso se cometeram muitos erros (Hocchmann, 2009), mas já de alguns anos para cá, tanto a terapia analítico comportamental avançou em suas pesquisas sobre as formas de atendimento ao autismo, quanto a psicanálise pode avançar em sua compreensão sobre essa difícil perturbação.
      No nosso movimento, composto por clínicos, pesquisadores e professores universitários de todo Brasil, temos conseguido compartilhar experiências bem sucedidas de políticas públicas e detecção precoce (Espaço Escuta, Instituto Viva Infância, instituto Lydia Coriat, Lugar de vida, NiiP dentre outros), pesquisas cientificas ( IRDI, Préaut, além de pesquisas de doutorados ), atendimentos em instituições publicas ( Capsi pequeno Hans, Capsizinho Campina Grande, Capsi Mooca, Unifesp, e outros), e publicações (quase 65% dos nosso membros tem publicações entre livros e artigos sobre o tema).
      É por esses motivos que o movimento luta contra a politica de desqualificação da prática psicanalítica para a pessoa com autismo, e com apoio de familiares e colegas de outras áreas, pretende esclarecer sobre possíveis mal-entendidos em relação à sua prática clinica e suas pesquisas cientificas. Defendemos que as famílias precisam ter direito a escolher o melhor caminho para seus filhos, o que inclui, tratamento clinico interdisciplinar, inclusão escolar e acompanhamento medico. A liberdade de escolha das famílias precisa ser de fato respeitada por todos: por nós profissionais, pelo governo, pelas associações de pais e familiares e pelas universidades.
      Ficamos muito contentes com essa possibilidade de ampliar o dialogo, pois no movimento essa é uma pratica constante. Foi com esse mesmo intuito de abertura, pluralidade e dialogo que buscamos o Fantástico para que práticas bem sucedidas em relação a pessoa com autismo pudessem ser apresentadas, e não apenas uma única: a pratica analítico comportamental, que, a partir da carta de vocês, entendemos também tenha ficado a desejar.
      Estamos à disposição e com interesse, em que essa troca de cartas, possa gerar oportunidades de conhecimento e aprofundamento mútuo, que possamos avançar no intuito de esclarecer e minimizar alguns “a prioris”, para que cheguemos onde todos os profissionais sérios querem chegar: trabalhar de modo ético, respeitoso e eficiente com as pessoas com autismo e suas famílias.
      Ansermet, F.; Giacobino, A. Autismo: cada um com seu genoma. Petrópolis: KBR, 2013.
      Hocchmann J. L’histoire de l’autisme. Paris: Odile Jacob, 2009.

  13. Sou mãe de um menino autista de 8 anos, assisti a série, e realmente faltou muitas informações, porém, fiquei feliz pois falou-se desta síndrome, não apenas com casos extremos com pedido de ajuda de mães desesperadas… Não estou defendendo a emissora que não muito me simpatizo. Eu como mãe acredito que onde se fale de autismo é bem quisto. E sobre a vossa critica quando ao sistema de saúde publica o SUS, quero lembrar o tamanho do Brasil, e que aqui onde moro não existe ninguém do MPASP que lutam pelos direitos dos autistas e que atendam com excelência pelo SUS, aqui em Dourados/MS, uma fono que atenda pelo plano de saúde privado já é uma sorte. Gostaria muito de poder contar com um grupo estruturado como o MPASP, que clareasse os caminhos dos pais e consequentemente dos filhos quanto a melhor terapia a ser realizada com cada tipo de criança. Fraterno Abraço e Boa luta Para Nós…

  14. Gostaria de solicitar , se possivel, artigos sobre a Síndrome de Münchausen – estou no ultimo ano de psicologia e meu tema do tcc é sobre este assunto. Caso tenha algum livro para indicar ficarei agradecida.

  15. bom dia
    Sou esposa, e meu marido tem uma ”doença” rara na verdade nem sabem se é doença, a algum tempo ele quebrou o braço, fez uma cirurgia, após 6 anos começou a atroficar, voltou ao médico e ele disse que era na cabeça. Entao me encaminhou a capital Curitiba Pr, em especialistas que diagnosticaram algo que a medicina nao esplica ainda.
    Ele esta perdendo os movimentos de todo lado direito, só consegue colocar o chinelo de maneira lenta, a fala tambem e principalmente os movimentos com a mão.
    Ja fez todos os exames possivel tomografias, resonacia….. já gastamos tudo que podiamos indo em medicos e nada.
    Por favor se possivel nos de um caminho, ele trabalha de eletricista de carro, sua profissao é exencial para seu trabalho.
    att Claudia Daniela de Souza

  16. NÃO VEJO COMO UM DESSERVIÇO, PELO CONTRÁRIO SE TODAS AS EMISSORAS TIVESSEM ESSE COMPROMISSO DE MOSTRAR A REALIDADE DA VIDA DE PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS, MUITO CONTRIBUIRIAM PARA QUE PAIS E PROFESSORES BUSCASSEM RECURSOS, MÉTODOS ENFIM FORMAS DIVERSAS DE MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA DESTES SERES TÃO ESPECIAIS. TEORIA É MUITO LINDO (MPASP) PORÉM A REALIDADE ESTÁ AI BATENDO EM NOSSAS PORTAS E CRITICAR UM PROGRAMA QUE MOSTROU DE UMA FORMA DIGNA A REALIDADE JAMAIS É UM DESSERVIÇO, DESSERVIÇO É VCS CRITICAREM A SÉRIE.

  17. Não se apavorem, o “Dr.” Drauzio Varella tem o cu no lugar da boca.

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