Desafios que o autismo nos coloca – Gustavo Stiglitz

Desafios que o autismo nos coloca

Gustavo Stiglitz1

O autismo coloca desafios constantemente. Desde o encontro com uma criança ou um adulto autista até tomar a palavra para dizer algo sobre ele, seja por parte de familiares, ou próximos, como por parte dos profissionais.
Desde a década de 1940 – quando aquelas onze crianças desafiaram Leo Kanner não entrando nas classificações conhecidas e depois, nos anos 1960, durante seu seguimento – o desafio continua.
Por exemplo, o desafio de entender e, sobretudo, comunicar que aquelas crianças que não tinham estado em instituições assistenciais, mas que ficaram com suas famílias ou famílias substitutas, tinham evoluído muito melhor que as institucionalizadas. Isto Kanner transmite em seu relatório, entre outras coisas.
É um desafio de diferentes âmbitos. Basicamente ético, clínico, epistêmico e político.
Poderíamos pensar esta série como uma ordem: 1° ético, 2° clínico… Colocando a questão ética em primeiro lugar. Mas, realmente, não é bem assim. Trata-se mais de uma amarração entre as distintas ordens, os diferentes âmbitos, onde a posição ética determina a orientação.
Não faz muito tempo, a Associação Americana de Psiquiatria publicou o estudo sobre a eficácia do chamado Modelo Denver de Início Precoce (ESDM – Early Start Denver Model). Este modelo, diz o estudo publicado no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, é eficaz para fortalecer as destrezas da linguagem e do pensamento cognitivo em crianças autistas a partir dos 18 meses de idade. Também pode ajudar em suas habilidades sociais, diminuir os sintomas de autismo e estimular sua atividade cerebral para que funcione de uma maneira “normal”. O estudo revela que a intervenção precoce no autismo ajuda a “normalizar” os processos no cérebro.
Os investigadores descobriram que as crianças que recebiam as intervenções precoces mostravam mais atividade cerebral quando viam rostos do que quando viam objetos, enquanto que as crianças que foram objeto de outras intervenções tiveram a resposta oposta.
O estudo incluiu 48 meninos e meninas entre 18 e 30 meses de idade que tinham diagnóstico de autismo. Em torno de 50% das crianças que participaram do estudo receberam a intervenção do ESDM por mais de dois anos −20 horas por semana. Ensinaram-se os pais das crianças como proporcionar o tratamento – o que era uma parte importante da intervenção. Vinte horas semanais, durante anos, “fazendo caras” a seus filhos! Que laço fica depois disto?
Quando o estudo foi concluído, os investigadores avaliaram a atividade cerebral das crianças por meio de eletroencefalogramas (EEG), os quais podiam mensurar a ativação do cérebro quando as crianças prestavam atenção a estímulos sociais, como rostos de pessoas, e a estímulos não sociais, como brinquedos.
Um número duas vezes maior de crianças que receberam a intervenção do ESDM mostrou mais atividade cerebral quando viram rostos e não brinquedos – o que estabeleceu que estas crianças têm uma atividade cerebral normal.
Pois bem: como saber se há ou não uma relação direta entre o método e o efeito que se “mede” com o EEG? E se a maior atividade frente ao rosto humano deve-se a marcas das “técnicas de instruções para a implementação do exame da conduta”? E se é uma reação de tédio ou terror mediante caras que invadem a intimidade e rompem a imutabilidade buscada? Como saber que esta maior atividade cerebral quer dizer que a criança está recebendo bem estes estímulos?
Ressoam aqui as palavras de Jim Siclair, autista de alto rendimento, que J.-C. Maleval cita em Étonnantes mystifications2: “…nossas maneiras de entrar em relação são diferentes. Se insistem nas coisas que vocês consideram normais, encontrarão frustração, decepção, ressentimento, inclusive raiva e ódio. Se se aproximam respeitosamente, sem preconceitos e abertos a aprender coisas novas, encontrarão um mundo que jamais imaginaram”.
Então, o desafio ético para a psicanálise no campo do autismo consiste em aceitar e sustentar respeitosamente (como afirma Gracia Viscasillas, no filme Otras Voces3), com a criança e mediante terceiros, estas diferenças.

O desafio clínico

“O que é a clínica psicanalítica?”, se pergunta Lacan em “Abertura da Seção Clínica de Paris” (05/01/1977).
Miller retoma a pergunta em Sutilezas Analíticas4 e diz que a clínica não é a psicanálise porque a transferência tem um poder solvente que a invalida e rejeita. Se “a clínica é arte de classificar”, a transferência conduz a classificar cada um em uma classe a partir de seus traços únicos, que não se repetem – por sua “puerridad…”, tal como Miller propõe em seu curso Los signos del goce, no primeiro capítulo intitulado “Quisiera ser un puerro…”5.
Lacan, na “Abertura da Seção Clínica”, é mais misterioso: “O que é a clínica? [….] Não é complicado, a clínica tem uma base, é o que se diz em uma psicanálise”.
Dizer que se baseia no que se diz em uma psicanálise implica que não é o que se diz em uma psicanálise, mas sim que se baseia nisto. Não é a mesma coisa. A experiência de dizer está em uma análise e a clínica está separada.
Além disto, há que se praticar a análise para fazer esta experiência. No Seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan define uma práxis como o tratamento do real por meio do simbólico. A clínica seria o saber que se elucubra a partir da prática e da experiência da análise.
E o que se diz em uma psicanálise com um autista? O que nos ensina Jim Sinclar: que há mundos inimagináveis e vividos por somente um. São inimagináveis as maneiras de articular corpo e linguagem e é este o desafio no autismo: descobrir o truque de cada um para pô-lo a trabalhar. Não para normalizar, mas sim para explorá-lo.
Para usar mais uma vez o neologismo: somos exploradores da puerridad6 autística.

O desafio epistêmico

Aprendamos com os autistas. O que eles nos ensinam um por um, e algumas de suas conclusões: por exemplo, quando Temple Grandin observa que não convém curar as obsessões nos autistas porque elas servem para organizar certos aspectos da vida7.
O desafio epistêmico inclui a transmissão disto que os autistas nos ensinam. Uma transmissão que não é possível – nem desejável – por meio de estudos comparativos de vocação científica.
O saber não está lá, mas em cada um dos sujeitos autistas e seu entorno.

O desafio político

Esta dificuldade exige estabelecer uma política para a transmissão sobre o que a psicanálise aprende do autismo.
O desafio é o de transmitir um saber que inclua, no mais íntimo de si, uma inconsistência.
Para isto, é fundamental localizar o interlocutor válido. Este é aquele que sabe que seu saber também é inconsistente, que não é uma leitura inequívoca do real.
A política da Escola inclui a questão do autismo, o que em determinadas ocasiões diz respeito à política da cidade.
É fundamental que a Escola inclua o autismo em sua agenda política.
Encontramos políticos, responsáveis por projetos de lei sobre avaliação diagnóstica obrigatória e abordagens do autismo reconhecidos oficialmente, que não tinham informações além dos relatos enviesados de alguma associação de pais cooptada pelas terapias cognitivo-comportamentais e pela indústria farmacológica.
É política – ao menos na Argentina – a questão pendente das associações de pais com afinidades com a psicanálise.
Nossa política não promove falsas opções do tipo “ou psicanálise ou ….”. Não. Nosso horizonte é a livre escolha do tratamento e o reconhecimento da psicanálise como uma abordagem do autismo.
É necessário manter-se informado das hipóteses, por mais disparatadas que sejam, produzidas pelo discurso da ciência acerca do autismo.
No Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante, Lacan diz que “o sintoma institui a ordem em que se revela nossa política. Implica, por outro lado, que tudo o que se articule por esta ordem seja passível de interpretação”. Isto é, que possa ser lido.
Nossa política é a da leitura do sintoma para cernir o real de cada um.
Como transmitir que a leitura do sintoma de cada um encerra mais verdade sobre o padecimento e os recursos deste um, deste alguém, que qualquer estudo comparativo, duplo cego, randomizado, baseado em evidências, mas que não leva em conta o um por um da psicanálise?
Como transmitir que não se trata de um desafio do conhecimento, mas sim do verdadeiro desafio que é o de poder ler a invenção de cada ser falante para arranjar-se com seu corpo e a lalíngua8?
Tradução: Heloisa Prado R. da Silva Telles

Psicanalista, membro da Escuela de la Orientación Lacaniana (EOL) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Coordenador da NRCEREDA na Argentina. Texto apresentado em Tratamientos de ninõs autistas y psicóticos – IV Jornadas do Departamento de Autismo e Psicose na Infância, do Instituto Clínico de Buenos Aires (ICBA), realizada no dia 24 de agosto de 2013 em Buenos Aires.
2 Maleval, J.-C. Étonnantes mystifications de la psychothérapie autoritaire. Paris: Navarin, Le champ freudien, 2012.
3 Otras Voces é um documentário sobre o autismo a partir da experiência de pais, mães e avós de crianças diagnósticas com autismo; do testemunho de Albert, um jovem de vinte anos com diagnóstico de Sindrome de Asperger, e também a partir do olhar de diversos psicanalistas da Europa. Dirigido por Iván Ruiz e Sílvia Cortés Xarrié e produzido por Teidees.
4 Miller, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós. 2011.
5 Miller, J.-A. Los signos del goce. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 1998. Cap. I – “Quisiera ser um puerro…”.
N.T.: No final deste capitulo, que introduz a diferença entre hábito e ética, Miller trabalha esta frase atribuída a Jean-Guy Godin: “Gostaria de ser um alho-porró porque eles são colocados em fileira” (en rang d’oignos, no original francês: expressão familiar que significa em fileira, mas que inclui a palavra oignos, cebola.). Esta frase é tomada como um Witz por Miller, pois “no fundo, do alho-porró à cebola é claramente do parecido ao mesmo, mas para isto é necessário que algo tropece, é necessário um pequeno tropeço. [….] Por que um alho-porró? Justamente para ser colocado em uma réstia como uma cebola” (p. 17).
6 N.T.: O autor recorre novamente aqui ao neologismo puerridad para evocar os traços únicos de cada um. Constrói este neologismo puerridad a partir de puerro (alho-porró), de acordo com a frase “Gostaria de ser um alho-porró”, como apresentamos na nota anterior.
7 Grandin, T. Atravesando las puertas del autismo. Editorial Paidós, 1997.
8 N.T.: lalíngua, tradução adotada, em português, desde a publicação de Outros Escritos (JZE, 2002) para o termo lalangue, criado por Lacan que conjuga o artigo la (“a”) com o substantive langue (“língua”).

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