Fala de encerramento do encontro em nome do MPASP – Julieta Jerusalinsky

ENCONTRO DO MPASP
– movimento psicanálise autismo e saúde pública.
Vozes do SUS: Atendimentos de Crianças em Sofrimento Psíquico
Data: 29/06/2013
Local: Instituto Sedes Sapientiae Rua Ministro Godói, 1484 – São Paulo-SP.

Fala de encerramento do encontro em nome do MPASP
por Julieta Jerusalinsky

Colegas,
Hoje trabalhamos muito em torno do que a experiência de tratamento de pessoas com autismo nos ensina e também em torno dos impasses que se apresentam atualmente nas políticas públicas de atendimento. Serei, portanto, breve, porque temos ainda muito trabalho pela frente.
Se fosse possível resumir esse encontro em uma palavra diria complexidade – complexo é o que está tecido e é somente nesse intercruzamento de experiências que poderemos avançar.
Avançar com os cuidados da pessoa com autismo em uma lógica da pertença e não da adaptação, como nos aponta Jorge Maalouf, do Caps-i Mooca;
Avançar para que o tratamento e o diagnóstico sejam feitos por uma equipe interdisciplinar que coloque em primeiro lugar a dimensão da criança (e o que se diga a de um bebê) como sujeito em constituição, em lugar de sublinhar o seu déficit, como nos aponta Luana Amancio do NASF;
Avançar para que, estar na rede seja circular em uma articulação guiada pela necessidade da direção da cura em cada caso, podendo produzir uma mudança de diagnóstico em lugar de circular em uma errância que perpetua a patologia, como tão bem demonstra o trabalho dos colegas Luciano Nader e Ana Paulo Andreótti da “Saúde da Família”.
Avançar para que os que apresentam sofrimento psíquico, entre eles a pessoa com autismo e seus familiares, possam ter acesso a diferentes abordagens de tratamento, usufruindo de direitos que lhes façam possível os cuidados necessários, mas que não acabem por segrega-los em centros específicos de atendimento por patologias tomadas como definitivas. Não avançaremos em uma lógica segregacionista por patologia como afirma Márcia Inocêncio (1).
Como já foi dito na abertura: A prática clinica mostra que a incidência de autismo em crianças com problemas orgânicos de base (deficiências sensoriais, deficiências motoras, quadros genéticos associados à deficiência mental) é significativamente maior do que na população em geral;
Assim como, crianças com quadros iniciais de autismo podem apresentar deficiências ao longo de seu desenvolvimento. Por isso a articulação entre as áreas de saúde mental e reabilitação é fundamental.
Como também consideraram Sandra Vieira (2) e Carol ao afirmar que se trata de realizar uma aposta para que o paciente possa ser protagonista de sua história, pois sabemos que abandonar alguém a uma pobreza de experiências causa efeitos muito mais limitantes do que os impostos pela deficiência inicial em si.
Trabalhamos considerando a necessidade da detecção e intervenção precoce de bebês e pequenas crianças com risco na constituição psíquica em um tempo em que as categorias nosográficas, se aplicadas, produzem efeitos iatrogênicos;
Isso é importante para que possamos intervir diante de sofrimento na primeira infância e não receber apenas com idades tardias em quadros patológicos muito mais instalados, como apontam os dados trazidos por Janaína (3).
Intervimos na articulação entre os campos de saúde e da educação para posterior inclusão escolar e profissionalização de nossos pacientes – como demonstra o trabalho dos colegas do “Centro Clínico Pinheiros”, apontando, como afirma Denise Cardellini, que se trata de uma clínica ampliada que intervém no estabelecimento de laços sociais nos impasses que isso implica para além da lei de inclusão.
Ou seja, é evidente nesses trabalhos que não há como dar conta da complexidade desse quadro por áreas isoladas.
Estamos cientes disso. Não somos ingênuos. Se estamos aqui nesse movimento é porque trabalhamos com uma abordagem psicanalítica atravessada pela interdisciplinaridade e dedicada aos problemas do desenvolvimento. Estamos em uma prática que coloca a palavra em cena articulada ao corpo, pomos a mão com a palavra (4) porque é isso que essa prática nos exige.
Fica claro que nesse sentido estamos em um debate sério e qualificado. Se alguém tem preconceito com a área de reabilitação e com a deficiência não somos nós. Não defendemos uma área em detrimento de outra, nossa prática sustenta a complexidade e nos preocupamos com o reducionismo.
Por isso inicialmente apoiamos o documento de Linha de Cuidados representado aqui por Bianca (5) – que de início propunha uma articulação entre áreas. Vera (6) , por sua vez, nos afirma que o autismo que passa a constar como deficiência, não sairá da área de saúde mental – que assim seja.
Então queria dizer que, se estamos aqui hoje, se hoje há um comitê junto ao Ministério da Saúde, ele foi provocado pelo MASP. É importante deixar claro que esse comitê não fazia parte de nenhuma estratégia prévia, foi uma conquista feita porque não dormimos no ponto.
Não dormiremos no ponto quando, na lógica corporativa do área por área ou método por método, se buscar reduzir a complexidade necessária à intervenção de pessoas com autismo.
Por isso todos aqueles que quiserem vir dialogar considerando essa complexidade são bem vindos. Nesse sentido agradecemos imensamente aos gestores e trabalhadores da ponta aqui presentes – de SP e de outros estados, A seriedade dos trabalhos apresentados fala por si mesma, mostra que uma intervenção terapêutica pode subverter o rumo de uma história. É por isso que trabalhamos e esperamos que os dispositivos políticos favoreçam essas experiências.
Por isso, mais do que uma fala de encerramento, esse é um convite, uma abertura. Estão todos convidados a participar no Movimento.
Agradecemos à comissão organizadora, aos colegas do Sedes que gentilmente nos acolheram. Seguiremos com próximos encontros em 14 de setembro e 23 de novembro.
Em nome do Movimento, obrigada e boa tarde a todos.

1-Márcia Moreno, representando a Coordenação de Saúde Mental do município de São Paulo;
2- Sandra Vieira, Coordenadora da Área de Saúde da Pessoa com Deficiência também do município de São Paulo.
3- Janaína Diogo representando a Coordenação de Saúde Mental do município de São Paulo;
4-Em resposta à fala de Vera Mendes quando afirma que os trabalhadores da Saúde Mental têm preconceito com a área da Reabilitação.
5-Bianca Cortes, representando a Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde;
6- Vera Mendes, Coordenadora da Área Técnica de Saúde da Pessoa com Deficiência também do Ministério da Saúde;

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