Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública celebra Dia Mundial do Orgulho Autista

Em apoio à pluralidade, diversidade e debate científico e metodológico que deve envolver as abordagens de tratamento da pessoa com autismo, os profissionais de Saúde Mental que integram o Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP) unem esforços hoje com outras instituições do país na celebração do Dia Mundial do Orgulho Autista, instituído pela Aspies for Freedom. Criada em 2004, nos Estados Unidos, a instituição Aspies for Freedom luta pelos direitos civis das pessoas com autismo, leva informações ao público em geral sobre a questão e oferece apoio às famílias. Em alusão à data, o MPASP, que reúne cerca de 400 profissionais de mais de 100 instituições brasileiras – acadêmicas, órgãos psicanalíticos de diferentes filiações teóricas, organizações não governamentais e focadas no tratamento de pessoas com autismo – também faz um alerta sobre a necessidade de tornar a Psicanálise mais presente no atendimento a pessoas com autismo, diante das evidências de que as práticas psicanalíticas têm papel importante na detecção e intervenção precoce e contribuem para a melhor qualidade de vida das pessoas que enfrentam o problema e de seus familiares.

O MPASP participa hoje de audiência pública a ser realizada na Comissão de Educação e de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, para debater o tema “A Educação da Pessoa com Autismo”, evento que ocorre a pedido da deputada federal Mara Gabrilli.

“A proposta do MPASP é trabalharmos em rede interinstitucional, compartilhando o que o tratamento psicanalítico de pessoas com autismo, na esfera pública e particular, ensinou-nos ao longo dos anos. Assim poderemos avançar na implementação de dispositivos públicos de tratamento que considerem a complexidade clínica e social que esse quadro exige – sustentando o diálogo interdisciplinar e a pluralidade de concepções científicas”, afirma Julieta Jerusalinsky, do Grupo Gestor do MPASP. Em um momento em que tanto no âmbito federal quanto estadual, decisões e políticas públicas estão sendo delineadas relacionadas à questão do autismo, os integrantes do MPASP empenham-se em trazer a público – para as autoridades envolvidas com a saúde pública, pais e sociedade em geral – a posição dos profissionais que trabalham com o tratamento psicanalítico da pessoa com autismo.

O MPASP acredita que o atual cenário político do país se coloca como favorável em relação às políticas públicas de saúde mental: tanto pela disponibilidade do governo federal em implementá-las pelo diálogo com os representantes da sociedade civil, como pela organização da sociedade civil para participar desse diálogo. Por essa razão, representantes do Movimento têm feito contato com várias esferas do governo, com o intuito de colaborar e de compartilhar os avanços da abordagem psicanalítica no atendimento a pessoas com autismo. Em audiência realizada com o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o MPASP assumiu o compromisso de apoiar o Ministério no trabalho de articulação das duas propostas e campos – saúde mental e saúde para pessoas com deficiência em um fórum de discussão a ser instituído pelo Ministério da Saúde.

A visão da Psicanálise

Para a Psicanálise, o que está em jogo, na criança com autismo, são problemas na relação com os outros. Cabe descobrir o modo singular de se relacionar da pessoa com autismo, para que seja possível oferecer nosso mundo a essas crianças. Para a Psicanálise, é necessário um tratamento que parte da escuta das aberturas e fechamentos singulares que cada criança apresenta, com muita atenção à subjetividade, às particularidades de cada um. Diversos serviços têm a psicanálise como eixo teórico que permeia uma clínica interdisciplinar que envolve psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, assistente social, enfermeiro e outros profissionais. Há um atendimento cuidadoso que começa desde a avaliação e elaboração do diagnóstico. Em seguida é pensado um projeto terapêutico singular para cada criança, que envolve os profissionais da equipe, assim como projeto de inclusão escolar (é realizado trabalho frequente com as escolas) e também de inclusão social, pensando nos diversos dispositivos públicos. É preciso analisar exatamente o que a pessoa precisa. Se precisa de medicamento, trabalho familiar, fonoaudiologia etc.

O trabalho clínico psicanalítico abre inúmeras possibilidades para que a pessoa com autismo possa construir laços sociais, sorver a celebração de viver e contribuir para uma sociedade humana; e auxilia os pais a se reposicionarem, ou seja, realiza um trabalho conjunto. O que não se quer é reduzir o trabalho clínico a moldar crianças a modelos socialmente toleráveis. O que interessa é a criança que usufrui a vida com todas as suas potencialidades, com um futuro em que há caminhos a escolher e a percorrer.

Essa é uma contribuição que, segundo o MPASP, tem que acontecer logo cedo, já que com crianças pequenas, quando é possível o diagnóstico e a intervenção precoce, maiores são as chances de ampliar as potencialidades da criança .

Diagnóstico e intervenção precoce

A intervenção precoce revelou ao longo dos anos a importância de intervir cedo quando se detecta um problema na constituição da criança e do bebê. É nas trocas precoces realizadas na relação com os outros que o bebê encontra a base de construção de sua história. Os bebês são muito diferentes entre si, têm ritmos diferentes, que exigem cuidados diferentes. Na clínica interdisciplinar com bebês o acompanhamento de um psicanalista permite o restabelecimento do contato perdido do bebê com seus próximos e a recuperação da capacidade de jogo de um bebê que apresenta sinais de risco de uma evolução autística.

No início da vida, o cérebro está em formação e as experiências de vida de um bebê que ocorrem na relação com os demais têm um papel decisivo no estabelecimento da rede neuronal. Por essa razão, a importância de intervir cedo quando se detecta uma dificuldade, em lugar de deixar o tempo passar, a fim de podermos contar com a mobilidade dos sintomas própria de um momento de plena maturação orgânica, aquisições do desenvolvimento e constituição psíquica.

A Psicanálise contribui na clínica interdisciplinar com bebês permitindo que o clínico esteja atento aos sinais de risco e de sofrimento precoce, o que possibilita intervir ao longo da primeira infância acolhendo a pequena criança em tratamento assim como a sua família, a fim de que que possam contar com uma rede de sustentação e uma interlocução que permita elaborar e encontrar saídas diante das questões despertadas pelos cuidados cotidianos da criança e do bebê. Ou seja, nesse momento tão importante de constituição da subjetividade, o psicanalista e os profissionais da equipe interdisciplinar podem oferecer à família uma rede de sustentação capaz de trabalhar as questões que surgem dos cuidados cotidianos.

Assim, a detecção precoce implica considerar dificuldades apresentadas por um bebê que exigem cuidados específicos a fim de favorecer a sua constituição. Em lugar de fechar diagnósticos, trata-se de intervir cedo antes que um quadro, entre eles o de autismo, esteja configurado. Com essa intervenção, é possível mudar significativamente os rumos da constituição de um bebê. É possível envolver a rede pública de saúde do país para que de forma interdisciplinar se trabalhe nessa direção.

No risco de autismo, a comunicação é difícil – e por efeito de frustração dessas investidas, pais e filho se fecham e pode não acontecer a construção comum, uma vez que as habilidades comunicativas – e portanto a relação – ficam prejudicadas. Por essa razão a Psicanálise se preocupa em fazer uma intervenção logo cedo, a fim de possibilitar, o tanto que for possível, a reestruturação da comunicação e da relação.

A detecção precoce ainda é a principal chave para obter melhores resultados no tratamento – e esse é um grande desafio. Um exemplo é o IRDI – instrumento validado em 2009 pela Pesquisa Multicêntrica de Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil. Esse instrumento foi criado por psicanalistas para acompanhar o desenvolvimento psíquico de crianças de zero a dezoito meses em consultas pediátricas e agora em Centros de Educação Infantil. A detecção precoce parte do princípio de considerar como critério de risco o fato de que um bebê ou pequena criança não realize certas produções que seriam de se esperar em determinado momento da vida, tais como as conhecidas conquistas do desenvolvimento e algumas outras mais sutis e específicas que demonstram como está ocorrendo a constituição psíquica na primeira infância.  Isso permite intervir a partir da detecção de um sofrimento (inicialmente apresentado como um empobrecimento ou ausência de conquistas próprias da infância), antes que este se configure como um quadro patológico.

Por considerar imprescindível realizar a detecção precoce de risco psíquico na primeira infância, o MPASP apóia o projeto de Lei da Senadora Ângela Portela (PL 451 2001), aprovado no senado em 17 de abril de 2013 e em tramitação na Câmara, que regulamenta a utilização de instrumento que possibilite detecção do sofrimento psíquico na primeira infância (IRDI ou semelhante) vinculado à atenção básica do bebê e criança sem estabelecer uma correlação com um quadro psicopatológico específico (respeitando o que é próprio da constituição dos 0 aos 3 anos), e sim considerando dificuldades que podem apresentar-se em sua constituição que exigem cuidados iniciais na atenção básica.

Ação interdisciplinar

Outro desafio está em mostrar a importância da ação interdisciplinar. A interlocução com pediatras que acompanham o desenvolvimento do bebê; pedagogos e psicopedagogos em relação à aprendizagem e inclusão escolar; com fonoaudiólogos, foniatras e linguistas acerca da linguagem; com fisioterapeutas e psicomotricistas acerca do corpo em movimento; com pediatras, neurologistas, geneticistas e psiquiatras acerca da implicação orgânica e medicação, entre outros profissionais (nas funções de acompanhantes terapêuticos, terapeutas ocupacionais ou assistentes sociais), torna-se decisiva e tem sido prática corrente dos psicanalistas nesse campo, possibilitando avanços que não poderiam ocorrer por intervenções isoladas.

Propostas do MPASP

O MPASP apoia, entre outros pontos, o direito que as famílias de pessoas com autismo devem ter de escolher as abordagens de tratamento para seus filhos; a pluralidade e o debate científico e metodológico das abordagens de tratamento; e a adoção de políticas públicas na área da saúde, educação e assistência social capazes de ampliar o campo de detecção e intervenção precoce.

Diante da importância de tratar e educar crianças, adolescentes e adultos com autismo de uma perspectiva que leve em conta a singularidade de seu sofrimento e de sua família, o Movimento propõe a adoção, em políticas públicas, de uma série de medidas. Entre elas, está a ampliação do campo da detecção e da intervenção precoces diante de sinais de risco para o desenvolvimento infantil nos equipamentos públicos de saúde, educação e assistência social. Além disso, o investimento na formação e capacitação de profissionais e na disseminação de conhecimentos, instrumentos e estratégias clínicas de detecção e intervenção precoce, com ênfase na atenção primária de saúde.

Outra meta do MPASP é o fortalecimento, nos serviços de saúde e educação, de perspectivas de atendimento que levem em conta a singularidade, ou a subjetividade, da pessoa com autismo, por meio da atenção a suas manifestações próprias, assim como o fortalecimento de perspectivas de atendimento que levem em conta a importância do estabelecimento do vínculo da pessoa com autismo com os outros.

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública se opõe à “medicalização” exagerada da infância e da adolescência no momento atual, que pode transformar uma simples e antiga timidez em fobia social. Seus integrantes afirmam que essa postura e a ampliação do espectro autístico estão criando uma falsa epidemia de pessoas com autismo. Por essa razão, o MPASP propõe também a disseminação dos conhecimentos a respeito da multicausalidade do autismo e ampliação do debate sobre a prevalência do diagnóstico em exames laboratoriais e de seu tratamento medicamentoso.

O MPASP destaca que é preciso preservar, sem exclusões, as quatro dimensões que devem estar igualmente presentes no atendimento da pessoa com autismo: física (orgânica), mental (psíquica), social (relativa à cidadania) e temporal (a perspectiva do desenvolvimento).

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Mais informações para a imprensa

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Fábio Scrivano fabio.scrivano@printeccomunicacao.com.br

Vanessa Giacometti de Godoy vanessa.godoy@printeccomunicacao.com.br

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