RESENHA: O BEBÊ NASCE PELA BOCA: Voz, sujeito e clínica do autismo

O BEBÊ NASCE PELA BOCA: Voz, sujeito e clínica do autismo – Inês Catão
Rosa Maria Marini Mariotto
Escrever um livro sobre autismo é sempre um desafio, pois o risco do lugar-comum é grande. Porém, a obra de Catão nos brinda com uma singular forma de apresentar e discutir esse tema tão instigante. Já na introdução, a autora mostra de qual perspectiva vai debater a questão. Ela lembra ao autor que, de modo geral,as discussões sobre o autismo destacam a fala dessas crianças, dando pouca ou nenhuma atenção a como elas ouvem.Não raro, as crianças autistas são diagnosticadas surdas ou são inicialmente encaminhadas para avaliações audiológicas, pois sua conduta dispersiva e desatenta face aos comandos da voz do outro, bem como a pobreza ou a inexistência discursiva despertam a preocupação dos pais e cuidadores. Para a autora o autismo apresentaria, assim, “uma falha no circuito da invocação, não possibilitando à função psíquica da voz constituir-se como tal” (p. 225). Alcançar essa tese não se deu facilmente, e é justamente com esse trabalho de rastreamento teórico-clínico que Ines Catão brinda o leitor, em seu raciocínio analítico-investigativo. O livro divide-se em três partes. Na primeira há uma nítida preocupação em oferecer ao leitor bases sólidas para a compreensão da estruturação psíquica. E, para isso, não apenas recorre aos textos de Freud e Lacan, mas convoca para a discussão Melanie Klein e Françoise Dolto, autoras que ainda fazem alguns analistas ditos lacanianos ‘tremerem nas bases’. Ilustra de modo magistral todas essas considerações teóricas com um caso clínico. A voz será o eixo da segunda parte do livro, ponto central de sua discussão. Aqui também Catão não se furta em trazer para a cena psicanalítica da pulsão invocante autores como Piera Aulagnier, que demonstra os três modos de metabolização do real, em que a voz do Outro tem função de unir a representação-coisa à representação-palavra, autores que se dedicam às pesquisas fetais, como também Didier Anzieu, que, com seu envelope sonoro demonstra de que modo o universo sonoro se antecipa ao visual na construção do Eu. A partir das três dimensões da voz – e para saber quais são, leia o livro! –, a autora confirma a voz materna – ou o manhês – como o “irresistível chamamento da voz da mãe que seduz o bebê. Este é o momento da alienação” (p. 173). Com isso posto, retoma o caso clínico, permitindo ao leitor acompanhar de que modo este canto da sereia não se enuncia nas palavras maternas e seus efeitos na montagem do psiquismo da criança, tema que se estende para a terceira parte do livro. O que ouve uma criança autista? Para Catão não é o canto da sereia, mas sim uma voz inconstituída, que não a seduz para a subjetividade. Desse modo, o autista ouve mas não escuta, já que o ruído do Outro não se transforma em voz: “A criança autista sofre de uma surdez seletiva para a voz do outro (Outro). O evita¬mento seletivo da voz do outro (Outro) se instala antes de qualquer evitamento seletivo do olhar…” (p. 226). E qual é o quinhão do analista na clínica com essas crianças? Conclui a autora que sua voz passa a ser moeda corrente e de valor na condução do trabalho clínico, na medida em que sua escuta deve permitir que a prosa lhe retorne com poesia, experiência mais próxima do inconsciente, aquela de fundação de um sujeito. Aqui, uma escrita de sereia, que seduz o leitor do começo ao fim! Titulo Original do Livro: Catão, I. (2009). O bebê nasce pela boca: Voz, sujeito e clínica do autismo. São Paulo: Instituto Langage. Resenha originalmente publicada em: Psicol. Argum., Curitiba, v. 28, n. 61, p. 177-178 abr./jun. 2010 Rosa Maria Marini Mariotto :Professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP), psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Curitiba, Curitiba, PR – Brasil, e-mail: rosamariotto@uol.com.br

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