ESPELHO, ESPELHO MEU – A PSICANÁLISE E O TRATAMENTO DO AUTISMO E OUTRAS PSICOPATOLOGIAS GRAVES – Isabela Santoro Campanário

ESPELHO, ESPELHO MEU – A PSICANÁLISE E O TRATAMENTO DO AUTISMO E OUTRAS PSICOPATOLOGIAS GRAVES
Isabela Santoro Campanário
Editora Ágalma, Salvador, Bahia, 2008

Gabriela Xavier de Araujo

Resultado da dissertação de mestrado da autora, o livro Espelho, espelho meu – a psicanálise e o tratamento do autismo e outras psicopatologias graves, de Isabela Santoro Campanário, lança questões e reflexões muito interessantes sobre tratamento, diagnóstico e intervenção precoce no âmbito das patologias graves da infância.
Fruto de um percurso consistente e singular, o livro mostra o diálogo constante tanto entre a psiquiatria e a psicanálise como entre a clínica, a pesquisa e suas reflexões teóricas. Tal diálogo é resultado da própria formação da autora, como psiquiatra e psicanalista. Acrescenta-se ainda a esta dialética, a discussão que a autora faz com Marie Christine Laznik – ao longo do seu percurso teórico – que se presentifica no livro, sob a forma de diversas anotações de sugestões e críticas que a psicanalista francesa faz sobre o trabalho de Isabela. Daí já se pode ver a audácia da autora e do projeto do livro.
Fundamentado nas dificuldades que a clínica suscita e procurando avançar teoricamente, Campanário propõe ao leitor um trabalho teórico-clínico, buscando encontrar recursos que tornem possível o trabalho com bebês em situação de risco psíquico. Partindo do trabalho realizado em um serviço de Saúde Mental da Infância e Adolescência da prefeitura do município de Belo Horizonte, onde a chegada tardia dos pacientes é uma das principais dificuldades de um bom prognóstico, a autora busca avançar no sentido de capacitar os profissionais de saúde para que se consiga detectar sinais de risco e atender esses pacientes precocemente. É partindo então das “pedras no meio do caminho”, como a autora mesmo coloca, que o livro se apresenta.
Para sustentar essa hipótese, Isabela constrói neste trabalho de pesquisa um apanhado teórico e histórico da clínica das patologias graves da infância. No primeiro capítulo, temos um percurso do conceito de autismo que vai desde o seu início com Kanner, passando pela forma que ele foi tomado pela psiquiatria e pela psicologia do desenvolvimento até os dias de hoje. Apresenta-se em seguida, o modo como o autismo foi pensado pela psicanálise. Mostra que já há importantes discussões sobre este tema desde a obra de Freud. A autora nos oferece ainda algumas das principais construções pós-freudianas sobre o autismo, nos indicando autores como Klein e Meltzer e o diálogo travado com eles pelos autores mais atuais como Laznik e os Lefort, entre outros.
Seguindo a construção dialética da autora, o capítulo traz ainda uma crítica sobre o debate estéril entre os defensores de uma causa orgânica e os de uma causa psíquica para o autismo. A autora se coloca questões a respeito deste conflito, pensando na forma como o instrumental do corpo e os processos subjetivos se entrelaçam. Apoiada na teoria lacaniana, a autora avança buscando encontrar interlocuções possíveis: “A criança vem ao mundo com um real orgânico que se apresenta em seu corpo, perfeito em alguns casos, sindrômico em outros, que pode facilitar ou não seu caminho em direção à subjetivação”. (p.40)
No capítulo seguinte, a autora apresenta diversos conceitos teóricos que ajudam a avançar nas diversas questões que o autismo coloca sobre o sujeito ainda não constituído. Aponta-se a forma como diversos psicanalistas se interessaram pelo campo do autismo pelo que ele nos ensina – pelo que nele não ocorre – da forma como se dá o nascimento do sujeito. Baseada na forma como Lacan trabalhou o conceito de pulsão no seu Seminário XI – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise – a autora discorre sobre a forma como a linguagem e o circuito pulsional vão tornando possível o nascimento deste novo sujeito.
“Nos cuidados maternantes, o agente da linguagem traça uma cartografia, mapeando – ao percorrer, distinguir, organizar e historiar – o organismo e seus orifícios. Nessa composição de um tecido significante, o corpo do ser é libidinizado: o gozo do fluxo vital é, assim, subtraído ao ser vivo, na necessária submissão ao esquadrinhamento da linguagem, que faz deste ser um sujeito”. (p.77)
A autora apresenta também a idéia de Holófrase de Lacan, tomada também como um instrumento para a compreensão da dificuldade do processo de alienação e separação no autismo e na psicose. Holófrase proposta pela autora como “ausência da dimensão metafórica” (p. 81). Através da narrativa de um caso, Isabela estabelece uma relação entre as manifestações holofrásicas e o circuito pulsional, interrogando-se sobre a articulação entre a fala e a pulsão. Como resposta possível para essa questão, a autora discorre sobre a pulsão invocante e o manhês.
Como outros eventos fundamentais no processo de constituição subjetiva, Isabela aponta o brincar – pensado a partir do fort-da –, a suposição do sujeito e a capacidade de se surpreender do Outro primordial: “Para que um Outro possa se surpreender perante as produções de pouco sentido (peau-de-sens) de um bebê nos primeiros meses de vida, é necessário que este Outro se furte de seu saber”. (p.106).
No terceiro capítulo, o livro apresenta três casos – um de risco de autismo e outros dois de outras psicopatologias graves. A autora mostra como é o trabalho de supor um sujeito ali onde não há, ou seja, nos mostra as principais ferramentas do seu trabalho clínico. Para além da possibilidade de se supor um sujeito, a autora apresenta a “falta da falta” como outro aspecto que faz obstáculo no processo de constituição subjetiva.
Pensando nas diferentes possibilidades de evolução desses tratamentos, apoiada no trabalho de Leda Bernardino, a autora trabalha com a idéia de psicoses não decididas da infância. Propõe também uma reflexão sobre necessidade de uma intervenção precoce muito mais do que de se estabelecer um diagnóstico precoce. O capítulo se encerra com a idéia de que esta indefinição diagnóstica é um operador clínico que permite a efetividade das intervenções e a “construção de saídas que ainda são possíveis” (p. 138).
Tomando como base todo o material apresentado ao longo da obra, a autora inicia o quarto capítulo propondo uma interrogação: Seria este trabalho preventivo ou antecipatório? Tomando a crítica de alguns psicanalistas ao trabalho preventivo em função da idéia do só-depois e revisitando alguns autores que trabalham com a idéia de prevenção, Isabela propõe que a única prevenção possível seria aquela que antecipa um sujeito.
Essa questão avança ainda para conclusão, onde a autora propõe que no trabalho com bebês o psicanalista faz uma suposição de um sujeito e que é esta suposição que torna possível o surgimento do mesmo.
“Ao atendermos precocemente não se trata de prevenção, pois a criança já apresenta sinais de que algo não vai bem. Trata-se sim de um tratamento que se antecipa à estruturação psíquica, podendo permitir ainda que alguma retificação da função materna e paterna aconteça” (p.149).
O livro mostra-se assim como um trabalho fundamental para aqueles que se aventuram pelo campo do autismo e da intervenção precoce. A forma como a autora entrelaça os conceitos teóricos com o trabalho clínico aponta para o único meio possível de se trabalhar neste campo – o de permitir (e sustentar) que as interrogações clínicas sejam motor de novas reflexões e construções teóricas.
Sabendo que a função do estádio do espelho é aquela de imago que é a de “estabelecer uma relação do organismo com sua realidade – ou, como se costuma dizer, do Innenwelt com o Umwelt” (Lacan, 1949). É através do espelho que a criança consegue construir uma imagem dela mesma e se posicionar como diferente do outro. O espelho assume neste livro então não só uma função como constitutiva do processo subjetivo. Ele nos mostra a forma como essa psicanalista consegue ir traçando seu percurso, suas identificações e ao mesmo tempo dando corpo à sua própria imagem através do reconhecimento e explicitação das suas diferenças – diferenças e identificações aqui, evidentemente, teóricas. Que esta nova imagem refletida por Isabela nos brinde com novas produções.

Gabriela Xavier de Araújo é psicóloga, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano do IPUSP, em cotutela com a Université Paris 7, bolsista FAPESP. gabrieladearaujo@usp.br.

RESENHA PUBLICADA NA REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALITICA DE CURITBA, N.22, EDITORA JURUA, 2011

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