PSICANÁLISE, CIÊNCIA E UNIVERSIDADE

PSICANÁLISE, CIÊNCIA E UNIVERSIDADE

Luciano Elia[1]

Eu havia inicialmente pensado em fazer, nesta intervenção, uma articulação que me pareceu necessária entre a Psicanálise e a Ciência, dois termos dos três que nomeiam esta mesa, para estabelecer que tipo de relação uma mantém com a outra, relação  que não é nada óbvia ou simples. Vamos  ver, pelo  andamento do que eu vou dizendo, se isso será possível ou mesmo necessário, porque decidi fazer outro caminho.

Decido partir de outro ponto: um PONTO POLÍTICO e TEÓRICO-CRÍTICO ao mesmo tempo, claro, mas que não desconsiderasse ou negligenciasse a dimensão política da questão, da mesa e deste movimento, importantíssimo, a meu ver. Faço isso inclusive para nem mesmo SECUNDARIZAR este ponto político, submetendo-o aos caminhos teórico-discursivos.

Este ponto é o seguinte: trata-se de AFIRMAR que aquilo que se apresenta como CIÊNCIA, hoje, sobretudo no plano PSI, neurocientífico e comportamental, a MEDICINA DO COMPORTAMENTO, e a PSIQUIATRIA ORGANICISTA DO DSM V, NÃO SÃO CIENTÍFICOS. É claro que é preciso ir além de dizer isso, é preciso FUNDAMENTAR isso, cientificamente, inclusive, e acho mesmo que se me chamaram, a mim e aos colegas desta mesa, é para trazer fundamento ao que dizemos, é para fazermos um debate sério, acadêmico no bom sentido do termo, científico, sobre isso, indo além do mero denuncismo ideológico, que valeria tanto quanto – isto é, tão pouco – o rechaço, totalmente ideológico, obscurantista, medievalmente inquisidor e discricionário que estão fazendo vergonhosamente, oficialmente, governamentalmente, com a psicanálise no campo público, em relação ao autismo, talvez sobretudo, mas não só em relação ao autismo, desqualificando-a como recurso a ser utilizado, apoiado pelas políticas e verbas públicas.

Às vezes eu me pergunto de onde vem, o que sustenta tanta desfaçatez, pouca vergonha, falta de pudor nesses atos. Os conflitos sempre existem, seja entre vertentes de teoria e práxis, mais claramente ainda nas políticas públicas, que envolvem dinheiro, reconhecimento, ação. Mas sempre se tenta dar algum fundamento aos atos de guerra ideológica. Neste caso, no mundo de hoje, as formas do poder estão tão bem assentadas, o capitalismo selou seu casamento com a ciência de forma tão sólida que é como se tivessem a certeza antecipada da mais integral impunidade no que fizerem. Junto com Freud, Marx, Lacan e Althusser, Foucault  teria que retornar ao  mundo para nos orientar em nossa luta.  Mas, como isso não vai acontecer, teremos que inventar um modo  de derrotar essa cruzada da frente única ciência-capital contra inimigos que não se reduzem à  Psicanálise, de que tratamos aqui, mas que nomeio logo: o pensamento  dialético, a perspectiva histórico-crítica, e a fenomenologia como método  são igualmente rechaçados (por  exemplo, do  ponto de vista pseudocientífico que vige, um usuário de drogas não deve nunca ser considerado em sua perspectiva histórica e social –  isso  não seria “científico”,  entendem? -,  em sua realidade transindividual e psicossocial. Do  ponto  de  vista do que se quer chamar de ciência (e se consegue,  por força do poder, unicamente, que sustenta esse obelisco de palha no vento, e que de outro modo nem ficaria de pé  por um segundo), o  usuário de drogas (crack) é  dependente químico, um organismo cuja dependência é atribuída a algum fator bioquímico ou transtorno jamais teorizado de conduta. A dialética da história social, e a experiência imediata de sua relação  com a droga, como fenômeno, são tão rechaçados quanto a tomada da  questão pela Psicanálise, como uma experiência do sujeito e do  inconsciente, que precisa ser tomada a partir de seu dizer.

No caso do autismo, o ataque é exclusivo e frontal à Psicanálise, porque é só a Psicanálise que se tem revelado eficaz na prática clínico-institucional, territorial, para fazer avanços importantes, em clínica e em pesquisa sobre o autismo. Mais do que na questão do uso de drogas, o autismo coloca em evidência a questão da própria constituição de um sujeito no quadro.

Mas, vamos aos fundamentos, que eu comecei afirmando que precisam ser dados à afirmação de que as formas de pesquisa e de exercício clínico que rechaçam a Psicanálise, as neurociências aplicadas e a medicina do comportamento, não são científicas. Digo neurociências aplicadas porque as neurociências têm toda a dignidade metodológica da ciência, e o cérebro é um mundo a ser pesquisado, estudado, e urgentemente, diria eu. Mas quando as NC estão a serviço da ideologia psicomédica comportamental  (e ela tem estado sempre), então  ela se nivela por baixo na ideologia dominante.

Toda ciência, desde seu surgimento como ciência moderna com Galileu, parte de uma formulação teórica  (não  precisa ser uma hipótese clara), mas de um  ponto de  vista, uma  posição no simbólico e se dirige ao real que ela  pretende tornar inteligível. Não  estou  falando de idealismo e racionalismo, mas do método galileano, fundador da ciência no sentido moderno. Galileu fez importantes formulações sobre a astronomia, sobre as posições e movimentos dos astros, e as submeteu à observação pelo telescópio, por exemplo. Mas não  foi o  telescópio  que informou Galileu.  Foram conceitos esboçados por Galileu que o levaram a construir o telescópio e observar astros.  O telescópio é o instrumento, não é o gênio do  saber. Disse então coisas que levaram a Igreja e a Inquisição a interrogá-lo, detê-lo, fazê-lo desmentir para não ser queimado, como Giordano Bruno foi. Galileu, mais malandro, negou legal o que ele disse lá dentro da câmera de torturas, mas na saída, gritou: “Mas que se move, se move”, e deu no pé, porque não era besta de ficar ali esperando as labaredas. Estamos mais ou menos na posição  de Galileu, sendo queimados  em fogueiras secularizadas, expulsos  da cidade da ciência e da política pública.

Mas prossigamos nos fundamentos. Galileu introduziu letras, álgebra, literalizou o real da física, recorreu à matemática. Com isso chegou a um elevado grau de inteligibilidade deste real, permitindo  que seu filho e sucessor, Newton,  viesse a formular leis que violentaram  a compreensão  imediata dos  fenômenos  físicos  (queda do  corpo pela lei da gravitação  universal, o que permitiu a Kant filosofar sobre a racionalidade universal e transcendental). O que o método  científico  faz  é munir o cientista de recursos para enfrentar o real e simbolizá-lo,  passível  de entendimento. Mas de forma alguma o método  científico admite que se inicie qualquer investigação com o  que se chama  de petição de  princípio. Seu princípio é uma ideia, que deverá  ser submetida à experiência.  Por  isso  método  hipotético-dedutivo, do qual a última etapa – e não  a primeira – é  a prova experimental.

O que faz a medicina do comportamento hoje? Ela deliberadamente despreza toda e qualquer possibilidade de que o real seja diverso daquilo que sua petição de princípio estabelece. Vamos ao autismo, que nos interessa aqui a todos, e que é um excelente exemplo disso. Um psicólogo comportamental não olha para o autismo com o olhar instigado por um enigma do real, perguntando: “o que será isso, meu Deus, ou se me permitem, que porra é essa, esse menino que se bate, que não fala, mas entende, desde que alguém se digna a dirigir-lhe atos de fala  e linguagem, que tapa os ouvidos para o verbo não entrar demais, que anda meio de lado, enviesado,  que não  fixa o  olhar, que se cobre de cocô,  que joga tudo longe, que acende e apara interruptores ininterruptamente, que se rejubila  com água corrente, etc. etc. etc.”. O psicólogo comportamental diz: esse transtorno invasivo do desenvolvimento (observem que essa denominação não problematiza, mas afirma, implícita e indiscutidamente, a ideia de desenvolvimento que Galileu, ou seja, a posição científica, mesmo que com toda a liberdade de ideias que deve assistir à ciência, no caso a ideia de desenvolvimento, teria colocado à prova. Há uma petição de princípio: trata-se de um transtorno de desenvolvimento, transtorno invasivo, marcado por condutas típicas que precisamos remover para aumentar o nível de competência pragmática e social desta criança. Nenhum enigma, nenhum real a ser elucidado. Nenhuma ciência.

Isso me faz recordar de um episódio real que presenciei: um psiquiatra, atendendo a uma mãe de autista que lhe diz que só se deu conta de que estava grávida do filho (que veio a se tornar autista) aos 7 meses de gravidez (e que pretendia contar ao referido psiquiatra as circunstâncias – de resto, preciosíssimas – de como se deu conta disso, mas não conseguiu fazer isso), disse a ela que isso não tinha a menor importância no quadro clínico e que o que importava era que ela levasse o filho para um exame para detectar áreas cerebrais afetadas nas crianças autistas. O instrumento assume o comando sobre as ideias e conceitos, e um fragmento espantoso do real – o relato da mãe sobre esse incomum desconhecimento de uma gravidez – é declarado “sem importância alguma no quadro”. Que cientista sério despreza o real que se lhe apresenta em nome do abstracionismo imaginário (das imagens cerebrais, e do imaginário da compreensão de todo sentido)?

Há, assim, outras petições de princípio complementares: HÁ DE HAVER uma base orgânico-cerebral para esse comportamento todo assim descrito. Entendem isso? Há de haver… Não faltará esse componente. Uma vez, em um debate na cidade de Belém, 2009, o CONPSI, Congresso Norte-Nordeste de Psicologia, ao qual  fui convidado para uma mesa especialmente criada pelos  próprios organizadores,  não resultante do  acolhimento das propostas dos participantes inscritos, portanto,  em função do que eu andava dizendo aos quatro ventos  sobre isso,  e que ofendeu a sociedade de psicologia comportamental,  também presente à mesa, uma pesquisadora,  aliás do Rio, da PUC-Rio,  ao ser perguntada por uma pesquisadora crítica sobre o  estatuto  de um tal  fator biológico obscuro que estaria (necessariamente)  na base da  etiologia do autismo, respondeu: “É, as pesquisas ainda não conseguiram detectar que fator  é  esse”. Mas, diante da perplexidade da outra pesquisadora, que dizia: Mas como, então, vocês afirmam que um fator obscuro ainda não detectado existe na base da etiologia de um quadro como o autismo? Que espécie  de rigor científico norteia vocês? A pesquisadora da PUC respondeu: “A comunidade científica internacional – da qual ela sistematicamente excluía a Psicanálise, como não fazendo parte desta comunidade – avalia que este fator existe”. Bem, ele há de existir, não importa se o caminho metodológico fará encontrá-lo ou não. Isso, meus caros, não é ciência, é dogma, religião,  mais do que ideologia.

Confrontemos esse procedimento com o de Freud, num exemplo clássico, o das paralisias motoras. Em 1891, vejam bem, antecedentes da Psicanálise, primórdios, pré-história, Freud, excelente pesquisador neurologista, cientista rigoroso, encontra-se com uma perna paralisada. Ele  conhecia melhor que ninguém a ciência neurológica, que dispunha de uma lei chamada CÉFALO-CAUDAL E  PRÓXIMO-DISTAL, segundo a qual toda paralisia motora, e toda paralisia era organicamente  determinada, deveria seguir,  ao longo de um feixe neuronal, a LEI (científica) de atingir primeiro as áreas  motoras controladas por segmentos MAIS PRÓXIMOS do encéfalo e depois os mais distantes, na  cauda medular  (céfalo-caudal e próximo-distal). No entanto, pacientes que ele atendia paralisavam movimentos ligados a áreas mais distantes E NÃO  PARALISAVAM movimentos ligados a áreas mais  próximas (por exemplo, paralisavam o braço mas moviam o  ombro). Isso era um contrassenso, um absurdo fenomênico, um refutador empírico, um escândalo, enfim. Ou aquela paciente estava FINGINDO, simulando, como se diz, ou teriam que rever a lei neurológica das paralisias motoras orgânicas.  Acontece que essa lei era sólida, gozava do que Popper chamaria de alto grau de corroboração empírica, não seria fácil nem cientificamente plausível derrubá-la não. Ocorreu então a Freud a posição  do cientista: ”que é  isso?” “que porra é essa”?, o enigma que  o  real  coloca a um espírito verdadeiramente científico. Será que não estamos diante de um fenômeno até hoje desconhecido  da ciência neurológica? Bem, o que resultou disso? Freud postulou, como Galileu, a possibilidade CIENTÍFICA da existência de paralisias  motoras  que NÃO  FOSSEM ORGANICAMENTE DETERMINADAS. Conceituou-as (produziu conceito) PARALISIAS MOTORAS HISTÉRICAS, que não respeitavam a LEI CÉFALO-CAUDAL PRÓXIMO-DISTAL sem com isso precisar derrubar a teoria neurológica, consistente  em seu campo. Pois que disse mais, disse que as paralisias motoras histéricas decorrem do conhecimento que o SENSO COMUM tem da anatomia. Imaginam isso? Alguém dizer, no ambiente científico, que o senso comum – e não o conhecimento científico dos feixes neuronais em sua distância para com os centros cerebrais – é que rege a geografia, o mapa anatômico de uma paralisia histérica? Freud não sabia que sua coragem científica o levaria à criação de um campo novo, a Psicanálise.

O que faria um psicólogo comportamental, um psiquiatra organicista, um gestor público atual, um deputado comprado pelo lobby dos laboratórios de psicofármacos de controle comportamental? Manteriam a histérica como simuladora? Depende, se a histérica fosse um IMENSO MERCADO em uma época como a de hoje, os psicólogos e psiquiatras médico-comportamentais fariam o que estão fazendo com o autismo, iam querer se apropriar da histeria e dizer que a  Psicanálise é ineficaz com a histeria.

Será?  Mas a histérica é por demais rebelde a esse tipo de manobra de mestre, pois ela, como demonstra Lacan, já vem com o  pão da castração quando o mestre vai com a farinha do significante que a vela. Ela sabe que o mestre é castrado,  aliás, ela sabe porque ela  É O  MESTRE CASTRADO exibindo sua divisão no laço social. Os psicólogos e pseudocientistas de hoje não teriam tido sucesso com as histéricas não.

Com os autistas, pareceria que sim, eles se deixariam moldar. Será? Penso que não. Os  pseudocientistas têm sucesso com as famílias dos autistas, assim como os gestores da direita tecnocrática, da internação  compulsória, têm sucesso com a classe média, refiro-me à clássica, aquela que vive ansiando por uma ordem social higienista e fascistóide. Os autistas, estes, são ainda mais rebeldes do que as histéricas. E proponho que os tomemos no mesmo lugar, homólogo, que elas ocuparam há  100  anos. A psicanálise está diante de um desafio bastante diferente, talvez refundador, porém homólogo àquele que resultou na sua fundação.

Que refundemos, reinventemos, pois, a Psicanálise, desta vez com inimigos sociais mais armados, um capitalismo que aprendeu o micro político além do macro, que perverteu as estratégias que poderiam combatê-lo, colocando-as a seu favor. Sejamos mais estratégicos ainda, guerrilheiros do discurso (e talvez de outros instrumentos também…), saibamos como reinventar a relação da pesquisa com uma verdadeira  ciência na Universidade,  na Clínica e na Política Pública. Mas, atenção: o momento é  de guerra.


[1] Psicanalista, supervisor clínico territorial dos CAPSis Pequeno Hans (1998-2011), Eliza Santa Roza (2000-2010) e da cidade de Vitória (2009-2012), Consultor da Área Técnica do Ministério da Saúde para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes (2003-2010), professor titular de Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ, membro do Laço Analítico Escola de Psicanálise.

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2 comentários sobre “PSICANÁLISE, CIÊNCIA E UNIVERSIDADE

  1. Deixo aqui o epílogo de um livro de um psicólogo e analista do comportamento.

    Edward G. Carr foi um profissional altamente crítico ao uso de psicotrópicos em casos de problemas de comportamento. E ainda há quem acuse analistas do comportamento de serem mancomunados com a indústria farmacêutica… Nada mais despropositado!

    Há um vídeo de uma palestra dele no YouTube (escute a fala de Carr, aos 21:28 do link abaixo, sobre a tão aclamada risperidona):

    Epílogo do livro Communication-Based Intervention for Problem-Behavior: a User’s Guide for Producing Positive Change:

    “É lamentável que, para muitas pessoas com deficiência, apresentar severos problemas de comportamento seja uma maneira importante, às vezes a única maneira, de influenciar os outros. Por isso, é fundamental não concentrarmos esforços em apenas eliminar comportamentos problema, mas sim em substituí-los por novos comportamentos socialmente aceitáveis, que sirvam aos mesmos propósitos que os comportamentos problema, mas de modo mais eficiente. Através da educação, as pessoas com deficiência podem entrar em relações sociais que se caracterizam não por controle, mas por reciprocidade, não por passividade, mas por participação, e não sendo uma categoria, mas sendo um amigo.”

  2. Infelizmente esse autor Luciano Elia, em suas colocações extremamente preconceituosas, equivocadas, superficiais e agressivas acaba por desqualificar a própria psicanálise e o grupo que está atuando nessa área.

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