POLÍTICA E ÉTICA DA PSICANÁLISE PARA O TRATAMENTO DAS PSICOSES: A subversão como resposta à segregação

Confira o texto de hoje: POLÍTICA E ÉTICA DA PSICANÁLISE PARA O TRATAMENTO DAS PSICOSES: A subversão como resposta à segregação

Como responderemos nós, os psicanalistas à segregação trazida à ordem do dia por uma subversão sem precedentes?”(LACAN, Alocução sobre as psicoses)

 

INTRODUÇÃO

A proposta desse tema de trabalho para a Jornada Autismo, Psicanálise e Saúde Pública coloca, de saída, um posicionamento em relação a como compreendemos a articulação possível entre esses três termos. Dessa forma, o título de nosso trabalho aponta para uma localização da Psicanálise no campo da Política e da Ética, e uma localização do Autismo no campo das Psicoses.
Consideramos que não há fatos que independam das teorias subjacentes ao próprio campo em questão, e que não há Clínica que possa dispensar um rigoroso conjunto de referenciais teóricos, sob pena de reduzir-se a uma terapêutica com eficácia apenas simbólica e inefável, equiparando-se à magia. Freud, ao contrário, é responsável pelo reingresso da verdade no campo da ciência, o que possibilita sustentarmos uma Clínica Psicanalítica a partir da causalidade psíquica. Destacamos, portanto, que é somente a partir da concepção inédita de sujeito, trazida pela Psicanálise – sobretudo a partir do ensino de Jacques Lacan –, tributária de sua relação fundamental com a linguagem, que podemos pensar de um modo não normativo na questão ética que os sujeitos psicóticos nos convocam a responder, qual seja: a da possibilidade de se estar na linguagem, mas fora do discurso.
A partir dessa definição geral do sujeito psicótico e de sua peculiar relação com a linguagem, o sujeito autista nos indaga ainda mais com sua tipologia particular, e sua posição no polo limite da relação com o Outro da linguagem. Assim, ele nos possibilita declararmos a sustentação radical de uma política da direção do tratamento que responda com a subversão contra a segregação.

I. O AUTISTA: UM ANALISANTE DE PLENO DIREITO
Pensar a política da Psicanálise para o tratamento das Psicoses em geral e, em particular, para as pessoas com o chamado “transtorno do espectro autista” implica, antes de mais nada, adotar uma posição ética contrária à segregação. O que orienta a Clínica Psicanalítica é exatamente o impossível de universalizar. Como nos lembra C. Soelr:“Penso que o desejo da diferença absoluta ao qual se devota o psicanalista, é suportado pela necessidade para os sujeitos um a um de se extraírem do lote para não desaparecerem no um entre outros, sempre anônimo”. (C. Soler, 1998, p. 289.).
As questões que vêm sendo debatidas sobre o tratamento para os sujeitos considerados em estado autista remetem necessariamente a uma outra questão maior que se refere à necessidade de se tomar como sujeito de pleno direito qualquer um, independente de sua idade, raça, sexo, condição social e, principalmente, psíquica. Foi esse pensamento subversivo que permitiu a Freud, desde 1905 – antes mesmo de analisar o caso do pequeno Hans –, abrir para a criança seu lugar como sujeito para a Psicanálise, na medida em que não recua diante de suas descobertas clínicas desde as histéricas, e se interroga pelo “infantil” que se impõe nas construções neuróticas.
De fato, a Modernidade, ao supor deter o saber sobre a criança, a coloca, paradoxalmente, no lugar de objeto. Segundo Prates Pacheco (2012): “para o bem ou para o mal o Discurso Universitário cria a criança no lugar do objeto, deixando o sujeito no lugar de algo a ser produzido pelo saber”. E ela acrescenta que rapidamente “A Criança” passa a ser um significante absorvido pelo Discurso do Mestre “que passa a agenciar, a partir de então, um saber sobre A Criança: a Pedagogia, a Pediatria, a Pedopsiquiatria”. (p. 279).
Nessa mesma direção entendemos o que Rosine Lefort(1997) dirá a respeito da situação em que se encontravam as crianças institucionalizadas:“(…) a questão da patologia de crianças pequenas em instituição hospitalar, cujo funcionamento corporal é submetido apenas a um S2 que se encontra no lugar de agente no discurso universitário – que faz mandato “come!”, “vai para o penico!” ou “dorme!”– tem como efeito o surgimento de sintomas que não se apresentam como respostas do sujeito. (p. 147)
Segundo Quinet:
A inclusão do sujeito no tratamento tem duas vertentes que devem caminhar juntas: por um lado, a inclusão do sujeito do inconsciente, com sua fala, sua história e seus sintomas, manifestações de sua singularidade. Isto significa incluir o sujeito no saber sobre sua patologia, seu pathos, seu padecimento. (…) A inclusão no campo social é também tributária do conceito de sujeito em Lacan, na medida em que não há sujeito sem Outro (…) O conceito de sujeito, portanto, é ao mesmo tempo individual e coletivo. Não há sujeito sem Outro – daí a dificuldade de encontrarmos as manifestações do sujeito no autismo, onde há um curto-circuito da alteridade” (Quinet,2006,p.49)
Como então pensar a questão da inclusão do sujeito no caso de pessoas que, por princípio, são consideradas fora do laço com o Outro, como é o caso dos autistas? Eis o desafio da Psicanálise, ao considerar o sujeito autista um analisante de pleno direito.
II. INCLUSÃO, EXCLUSÃO E SEGREGAÇÃO
Sabemos que delimitar um conjunto dos autistas estabelecendo para este normas e protocolos de tratamento, longe de incluí-los, reforça sua condição de sujeitos fora das normas, o que promove ainda mais sua segregação. Advertimos aqui que estamos diferenciando os paradoxos do binômio “inclusão X exclusão” da segregação, em particular como foi trabalhada por Lacan em 1967.
Para abordarmos brevemente o que diz respeito ao suposto binômio “inclusão X exclusão”, colocaremos algumas questões de base: trata-se de uma relação de complementaridade? Será que não poderíamos pensar as relações entre exclusão X inclusão como sendo de ordem suplementar, incluindo aqui a categoria do impossível? Como poderemos, a cada vez, atualizar essas questões quando nos referimos às intervenções clínicas nos diferentes níveis em que elas se apresentam?
Considerando tratar-se de uma relação suplementar, propomos que o tratamento da exclusão da diferença considere, sobretudo, a resposta singular que inventa versões que subsidiem espaços diferentes para o que é da ordem da exclusão. Temos então a possibilidade de abalar o binômio “exclusão X inclusão”, acrescentando o impossível (via o suplementar, em questão). Acrescentemos, ainda, um quarto termo, qual seja, o desejo do analista. O desejo do analista é a condição absoluta de manter toda relação de complementaridade em enigma. Ele cava um fosso em binômios tais como o de inclusão X exclusão. Quinet (2006), ao se perguntar pelo laço social nas psicoses, escreve:
A inclusão como inserção social é receber do exílio aquele que cortou os laços com as exigências da civilização, tais como renunciar às pulsões sexuais em função do outro. (…) A inclusão de que se trata é a inclusão da diferença radical no seio da sociedade de supostos iguais – por exemplo, a sociedade de cidadãos.// Por muito tempo, houve uma foraclusão da inclusão na história da psiquiatria que adotou outro binômio: exclusão e reclusão. (…) Em vez de foracluir a inclusão, trata-se de incluir a foraclusão” (p. 49)

Incluir a foraclusão é um imperativo ético que se atualiza, a cada vez na clínica. Trata-se de uma resposta que, a seu modo, evoca o que Freud nomeou a Coisa, e para a qual Lacan inventou o neologismo “êxtimo”. A saber: aquilo que fosse excluído originalmente será considerado como o mais íntimo do sujeito; um interior excluído que escreve – como modo lógico necessário: não para de escrever – uma resposta do ser falante no seu laço ao Outro. Esse interior excluído que é retroativamente o exterior incluído, a ser reconhecido como o mais íntimo de nosso ser, foi o que Lacan propôs ao falar da ética da psicanálise. A Coisa Freudiana se deduz como lugar da perda fundante do ser falante. A possibilidade de criar um sistema no qual o sujeito encontre asilo ao exílio da sua existência de linguagem ameaçada por essa obscenidade do Outro. Segundo Berta (2010):“Das Ding é o fora-do-significado, em função disso, o sujeito construir uma relação patética (pathos) com esse fora, conservando uma distância e extraindo um afeto primário – a angústia ¬ anterior a todo recalque”.
Evoquemos neste ponto preciso o que é da ordem da segregação, entendida como a facticidade real (Lacan, 1967). Facticidade, termo que evoca o Dasein Heideggeriano, se diferencia da contingente factualidade dos objetos da experiência. (Harari, 2007, p. 192) A facticidade exige uma construção que enlaça os acontecimentos, indica seja a contingência do evento seja a insistência em poder deles fazer uma ficção subjetiva para dela retirar o seu caráter absurdo. Eis a proposta de Lacan ao diferenciar o que é da ordem dos acontecimentos e o que é da ordem de uma construção (elaboração) dos mesmos. Porém, podemos acrescentar que isso não depende tão somente das identificações (facticidade imaginária), mas dos modos de gozo, entenda-se com isso os modos de responder ao impossível. Evoquemos ainda que a facticidade simbólica remete aos usos do Mito do Complexo de Édipo, foracluído quando se trata da psicose.
Nas últimas décadas os psicanalistas vêm respondendo à segregação da psicanálise, debatendo sobre os diferentes entraves e mal-entendidos que levaram a medidas por parte do Estado, que tende a desconhecer o mal-estar e o tratamento do impossível, tendendo a intervenções que supostamente evidenciariam sua eficácia a partir da quantificação. Tais quantificações têm produzido um sintoma que levou ao pior, na sociedade, em particular no século XX: a segregação. Quantificações que não somente dizem dos diagnósticos, mas da falta de perguntas pelo que é da ordem da existência, ou seja, em termos psicanalíticos, pelo que é da ordem do impossível e das respostas subjetivas possíveis que não o neguem sistematicamente. Em contrapartida, a clínica psicanalítica deverá acolher e questionar eticamente “a angústia do indivíduo diante da forma concentracionista do vínculo social”. (Lacan, 1949, Escritos, p. 102).

III. A QUERELA DA ETIOLOGIA E DO DIAGNÓSTICO

Ora, se a partir da Psicanálise sabemos que as respostas do sujeito dependem em grande medida do discurso predominante no laço social vigente, precisamos introduzir nesse debate a questão do diagnóstico no contexto da Psiquiatria contemporânea. Concordamos com a afirmação de Quinet (2006) de que: “fundar uma prática de diagnóstico baseada no consenso estatístico de termos relativos a transtornos, que por conseguinte devem ser eliminados com medicamentos, é abandonar a clínica feita propriamente de sinais e sintomas que remetem a uma estrutura clínica, que, no caso, é a estrutura do próprio sujeito (p.22). Por todas essas razões:
“restituir a função diagnóstica no tratamento psiquiátrico a partir de uma clínica do sujeito é um dever ético que a Psicanálise propõe para a Psiquiatria. Isto é uma forma de sair do discurso do capitalista que condiciona desde o diagnóstico até o tratamento para restituir à medicação seu justo valor paliativo e não resolutivo do sofrimento mental. Pois a Psicanálise não se opõe à Psiquiatria, mas sim a todo Discurso que suprime a função do sujeito.”( p.22)
Nesse ponto, é preciso destacar que a Psicanálise, enquanto campo próprio do conhecimento humano é, a um só tempo, como queria Freud, seu fundador: um procedimento para a investigação de processos mentais, um método (baseado nessa investigação) para tratamento e uma coleção de informações psicológicas obtidas por essa investigação, que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica.
Segundo Pacheco Filho, os adversários do Positivismo no Campo Epistemológico questionam justamente a ideia de um desenvolvimento linear, gradualmente progressivo e contínuo das investigações e realizações científicas, e privilegiam uma concepção de corte epistemológico, revolução e ruptura. O autor acrescenta ainda: “São autores que, além do mais, contestam a separação radical entre fato e teoria”. E segundo Hanson:
(…) observações e interpretações são inseparáveis – não apenas no sentido de que nunca se manifestam separadamente, mas no sentido de que é inconcebível manifestar-se qualquer das partes sem a outra. (…) Separar a urdidura do tecido destrói o produto; separar a pintura da tela destrói o quadro; separar matéria e forma numa estátua torna-a ininteligível. Assim também, separa os sinais-de-apreensão-de-sensações da apreciação-do-significado desses sinais destruiria o que entendemos por observação científica… A concepção de observação proposta pelos neopositivistas – por meio da qual o registro de dados sensórios e nossas elaborações intelectuais relativas a eles se mantêm apartados – é um golpe analítico equivalente ao de um açougueiro lógico. (1967/1975, p. 127-128)
Pacheco Filho (2012) também afirma que “o aspecto importante a registrar é o fato de que o campo de uma nova disciplina científica sempre se constitui a partir de uma ruptura com a ordem científica anterior (um corte epistemológico), em que surgem novos ‘compromissos de investigação’ adotados pela comunidade do campo.”
Nessa mesma direção, Nogueira (1997) sustenta que “a pesquisa feita por Lacan situa epistemologicamente o campo freudiano da linguagem considerando a materialidade do significante”. E acrescenta que “há aí uma exigência de rigor de pesquisa que coloca esta clínica no nível de promissoras conquistas científicas da realidade propriamente humana”.
Assim, a Psicanálise conta com sua própria concepção de sujeito, uma diagnóstica coerente com essa concepção e uma terapêutica afim.
Do ponto de vista da Psicanálise de orientação lacaniana, a categoria clínica AUTISMO engloba um conjunto vasto de sinais, sintomas, reações e posicionamentos subjetivos distintos, que, por sua ampla diversidade, não poderia ser contemplada por uma classificação uniforme e universal. Dessa forma, em nossa terminologia específica, utilizemos mais frequentemente a expressão: “estado autista”. Consideramos que os chamados transtornos do “espectro do autismo” são em grande parte decorrentes de causa sobredeterminada por muitas dimensões (orgânica, psicopatológica, histórica, etc.), fato que, de resto, pode-se inferir da maioria das afecções e transtornos que afetam o ser humano, sobretudo os transtornos ditos mentais.
O autismo enquanto “estado” pode ser encontrado, sobretudo quando ocorre na primeira infância, em diversas estruturas e tipos clínicos – se levarmos em conta o diagnóstico estrutural, próprio da Psicanálise –, e mais frequentemente na Psicose de tipo esquizofrênica prematuramente desencadeada. Por outro lado, é possível também reconhecer um tipo clínico específico em certos sujeitos, no qual encontramos o que chamamos de uma “patologia da libido” (Soler, 1997), libido aqui tomada conceitualmente enquanto órgão produzido pelo encontro com a linguagem. Segundo Soler, poderíamos dizer que “essas crianças, na condição de sujeitos, permanecem puros significados do Outro”, e dessa forma, “são sujeitos, mas não sujeitos que enunciam”. (“Clínica da esquize”, p. 226).
E aqui, precisamos voltar à tão debatida questão da etiologia, a partir da Psicanálise, cujo campo epistemológico e clínico, com uma noção própria de causalidade psíquica, rejeita o binômio inatismo X ambientalismo. Citemos, a esse respeito, nosso colega Bernard Nominé, membro da EPFCL-França, em trabalho apresentado sobre o tema no VIII Encontro Internacional da IF em 2012:
Entretanto é necessário precisar que os psicanalistas não temem os avanços da ciência genética. O cognitivismo e a neuropsicologia se inspiram nas neurociências apenas para se opor à psicanálise, quer dizer, por não saberem nada da estrutura de linguagem. (…) Optar pela ciência contra a psicanálise é, portanto, uma aberração; a psicanálise não se opõe em nada às descobertas da ciência.
É bastante provável que haja no espectro autístico patologias hereditárias. Ao mesmo tempo, mesmo nessas patologias aparentemente hereditárias, não se conseguiu isolar um gene responsável. Suspeita-se de pelo menos quatro sequências possíveis. Com isso, não há como propor uma triagem séria! Os falsos positivos seriam bem mais numerosos e o teste provocaria mais mal do que bem. Bertrand Jordan, biólogo molecular, pesquisador no CNRS, de quem dificilmente se pode suspeitar de ter um a priori favorável à psicanálise, escreve o seguinte: Sendo o autismo também um problema da relação, a profecia corrente de um teste muito impreciso corre o riso de ser autorrealizadora: designado como sendo de autorrisco, a criança será alvo da solicitação inquieta de seus pais, assim, se ela não fosse já autista, poderia se tornar…” Vindo de um geneticista advertido, essa observação tem o seu peso.
Esse pesquisador em genética se preocupa em nos lembrar que não se pode confundir genótipo e fenótipo. O genótipo se manifesta em fenótipo sob a influência de contingências diversas que são incalculáveis. A transmissão do genótipo não basta em si mesma para escrever um destino. A tentação é grande, para alguns, de apelar à genética para compensar a questão da causa.

Destacamos, de qualquer forma, que um possível traço de origem orgânica na etiologia dos estados autistas não altera em nada o fato de que essas crianças e adultos possam ser amplamente beneficiados por terapias relacionais de forma geral e, especificamente, pelo tratamento psicanalítico. Nesse contexto, o perigo de se tratar um sujeito em estado autista a partir de protocolos universalizantes, como se estes indivíduos fossem todos iguais, é continuar mantendo-os no anonimato no qual se situam desde muito cedo.

IV – O TRATAMENTO PSICANALÍTICO DE SUJEITOS EM ESTADO AUTISTA:
Como é possível então ao psicanalista responder de forma a subverter o anonimato de pessoas em estado autista? Como escutar “seres não falantes” para que possam fazer um uso da língua tal que seja possível um apaziguamento e, talvez, uma suplência?
Não obstante o fato de constituir-se como um campo científico específico, como procuramos sustentar, precisamos reconhecer que o tratamento psicanalítico é efetuado por profissionais de diferentes abordagens no interior do próprio campo psicanalítico, do mesmo modo como há diferenças nas demais abordagens da Psicologia Clínica, bem como em qualquer disciplina que reivindique uma prática clínica, inclusive a própria Medicina. Essa diversidade não é decorrente da falta de rigor ou de fundamentos adequados, mas é inerente ao próprio movimento do surgimento da Clínica ao longo da história, como vários autores têm demonstrado. A diversidade entre os Psicanalistas, portanto, não é vista entre os pares desse campo como algo necessariamente negativo, ou algo que deva ser eliminado a priori, mas, antes, como um fato decorrente do estado atual de nossa práxis, e cujo debate livre deve ser reconhecido e aprofundado pelos atores que participam do próprio campo, como é prática comum nas Universidades, Institutos e Escolas destinadas à formação dos psicanalistas. Essa diversidade, é importante ressaltar, é amplamente reconhecida por diversos Estados de Direito, inclusive o Brasil.
O reconhecimento dessas diferenças não nos impede de afirmar, entretanto, que o objetivo geral da Psicanálise com sujeitos autistas é o de minimizar suas angústias, ampliar suas capacidades de aprendizagem, permitir que eles encontrem prazer nas trocas emocionais e afetivas e proporcionar uma ampliação de seu campo de escolha, bem como de sua possibilidade de laço social. Trata-se, evidentemente, de um trabalho a longo prazo, cujos resultados não podem ser avaliados através de critérios mecanicistas ou quantitativos.
Se por um lado a Psicanálise, em sua origem, permitiu à criança tomar seu lugar enquanto ser falante, por outro é fundamental que uma pessoa em estado autístico possa encontrar, na cultura, um outro que não o trate de forma anônima tal como ele mesmo parece se colocar: sem nome, sem desejo. Sabemos que o tratamento dos ditos autistas toca no limite do insuportável: deparar com alguém que recusa um laço com o outro. Para suportar esse encontro, é fundamental sustentar uma posição em que o único desejo em jogo, da absoluta diferença, permita uma aposta constante de que o nascimento do Outro seja possível.
A partir de nossa experiência com esses sujeitos, podemos afirmar que a via da Psicanálise é a da ética que aposta na diferença absoluta: da repetição estereotipada extrair um gesto que faça laço; da ecolalia, uma voz que se faça escutar. Sabemos que não há garantia de que um Outro venha a nascer, como diziam Rosine e Robert Lefort; mas sem essa aposta, é certeza que o anonimato e a segregação continuarão sendo o destino para essas pessoas.
Como diz Nominé (2001), para isso “é preciso situar o encontro com um psicanalista que saiba produzir, com tato e prudência, um pouco de alteridade para fazer suplência a este Outro que tarda a nascer.”(RevistaMarraio,n.2)

Participantes e colaboradores diretos do texto: Sandra Berta e Beatriz Oliveira (coordenadora e colaboradora da Rede Clínica do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo/ FCL-SP); Ana Laura Prates Pacheco e Beatriz Oliveira (coordenadoras da Rede de Pesquisa “Psicanálise e infância” do FCL-SP); Sandra Berta, Beatriz Almeida e Glaucia Nagem (coordenadoras da Rede de Pesquisa “As psicoses” do FCL-SP); Ana Laura P. Pacheco, Raul Albino Pacheco Filho, Sandra Letícia Berta, Silvana Pessoa (coordenadores da Rede de Pesquisa “Psicanálise e Saúde Pública” do FCL-SP); Ana Paula Pires (membro do Fórum do Campo Lacaniano/ FCL-SP); Ana Paula Lacorte Gianesi (diretora do FCL-SP); Tatiana Assadi (coordenadora das Formações Clínicas do Campo Lacaniano/ FCL-SP)

Referências Bibliográficas
ALBERTI, S. (1999). Autismo e esquizofrenia na clínica da esquize. Rio de Janeiro, Marca d’Água Editora LTDA.
BERTA, S. Um Estudo Psicanalítico sobre o Trauma, de Freud a Lacan. São Paulo, 2012 132 p. Teses de Doutorado, 274 f – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Clínica – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
LACAN, J. (1949) O estádio do espelho como formador da função do eu. In______. Escritos. Trad.: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998, p. 96-103.
________. (19XX) Alocuções sobre as psicoses na infância. In Escritos. Rio de Janiero: Jorge Zahar, 2003.
________. (1967). Proposição de 9 de outubro sobre o psicanalista da Escola In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 248-264.
NOGUEIRA, L.C. A Psicanálise: uma experiência original: o tempo de Lacan e a nova ciência. Tese de Livre – docência apresentada no IPUSP, 1997.
NOMINÉ, B. “ O autista: um escravo da linguagem”. In: Revista Marraio. n.2 Formações clínicas do Campo Lacaniano. Rio de Janeiro: Marca d’Água Livraria e Editora, 2001.
PACHECO FILHO, R. (2012). “O frenesi teórico sobre o sujeito do capitalismo tardio”. In:RUDGE,Ana Maria & BESSET, Vera L. (orgs.) Psicanálise e outros saberes. Rio de Janeiro, Cia de Freud/FAPERJ, 2012, p. 183-205.
PRATES PACHECO, A.L.. (2012) Da fantasia de infância ao infantil na fantasia: a direção do tratamento na psicanálise com crianças São Paulo: Annablume, 2012.
________. (1967). Anexos. Primeira versão da “Proposição de 9 de outubro sobre o psicanalista da Escola” In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 570-586.
QUINET, A. Psicose e laço social: esquizofrenia, paranoia e melancolia. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 2006.
SOLER,C. A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998.
SOLER,C.“Autismo e Paranoia” In: Autismo e esquizofrenia na clínica da esquize. Rio de Janeiro, Marca d’Água Editora LTDA., 1999

Anúncios