DO DSM-I AO DSM-5: EFEITOS DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO “ESPECTRO AUTISTA” SOBRE PAIS E CRIANÇAS

DO DSM-I AO DSM-5: EFEITOS DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO “ESPECTRO AUTISTA” SOBRE PAIS E CRIANÇAS

Resumo: O objetivo do trabalho é analisar criticamente as edições e revisões do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), com a finalidade de mostrar como o autismo, inicialmente considerado sintoma de uma afecção, foi transformado num dos principais diagnósticos psiquiátricos para a criança. O estudo procura estabelecer relações entre cada nova edição e o desenvolvimento da psiquiatria, e assim revelar como o abandono de postulados da psicanálise e a influência da farmacologia e das neurociências foram decisivos para o desenvolvimento de procedimentos classificatórios baseados na mera descrição do comportamento, o que veio favorecer a indicação de terapias cognitivo-comportamentais. Por último, o trabalho busca indicar os efeitos do diagnóstico generalizado de “espectro autista” sobre pais e crianças e a tarefa da psicanálise face a essa realidade que, posicionando-se diante de políticas gestoras do setor público e privado, defende eticamente a existência da diferença, criando assim o campo onde poderá trabalhar a dimensão inconsciente, a singularidade do desejo e a condição de sujeito falante, apostando em sua emergência para além de qualquer diagnóstico.
Palavras-chave: DSM, autismo, psicanálise, saúde pública.

1. Introdução

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM), da Associação Psiquiátrica Americana (APA), se propõe a oferecer uma base empírica para a prática clínica, pesquisa e ensino da psicopatologia, bem como servir de instrumento para a coleta e a comunicação de dados estatísticos referentes à saúde pública (APA, 2002).
Ao longo do tempo, o Manual tem alcançado uma grande repercussão não apenas nos Estados Unidos, mas também em outros países, nos quais vem sendo largamente empregado. Como referência internacional, é utilizado pelos sistemas de saúde pública, convênios médicos e centros de pesquisa psiquiátrica e farmacêutica (MAYES e HORWITZ, 2005). Às vésperas do lançamento da sua quinta edição, tornou-se conhecido como a “Bíblia Americana da Saúde Mental” (G. POMMIER, 2011; R. R. GRINKER, 2011).
No entanto, suas sucessivas edições e revisões têm acarretado uma série de consequências, tais como a multiplicação de classificações diagnósticas, a crescente medicalização, a indicação generalizada das chamadas terapias cognitivo-comportamentais e o empobrecimento do ensino da psicopatologia. Aqui, interessa-nos, particularmente, mostrar como o Manual provocou o que vem sendo chamado “epidemia de autismo” e de que modo a sua quinta edição virá inflacionar mais ainda os números de casos diagnosticados, com graves consequências para pais e crianças.

2. Do DSM-I ao DSM-5: o autismo nas edições e revisões do Manual

Desenvolvido pelo Comitê de Nomenclatura e Estatística da APA e publicado em 1952 (ver Nota 1), a primeira edição do DSM é uma variante da sexta versão da Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), que pela primeira vez incluiu em suas descrições clínicas uma seção dedicada aos transtornos mentais.
O DSM-I continha um glossário de descrições de categorias diagnósticas nas quais fazia uso do termo “reação”, o que refletia a influência da perspectiva psicobiológica de Adolf Meyer, para quem os transtornos mentais constituíam reações da personalidade a fatores psicológicos, sociais e biológicos (APA, 2002). Nessa edição, a etiologia do transtorno era notadamente levada em conta. O uso de termos como “mecanismos de defesa”, “neurose” e “conflito neurótico” indicavam a influência da psicanálise na construção do Manual (N. SIBEMBERG, 2011, p. 93).
O autismo aparece no DSM-I como um sintoma da “Reação Esquizofrênica, tipo infantil”, categoria na qual são classificadas as reações psicóticas em crianças com manifestações autísticas (APA, 1952). Portanto, na primeira edição do DSM o autismo não é apresentado como uma entidade nosográfica.
O DSM-II (1982) eliminou o termo “reação” (APA, 2002, pág. 23). A classificação passa a ser “Esquizofrenia tipo infantil”, categoria equivalente a “Reação Esquizofrênica” do DSM-I. O comportamento autístico, uma das manifestações de esquizofrenia na infância, permanece sendo um sintoma (APA, 1982). Termos psicanalíticos são utilizados ainda mais.
A terceira edição do Manual (1980) e sua revisão (DSM-III-TR, 1987) trouxeram notáveis inovações. Critérios específicos de diagnóstico são implementados, como o sistema axial e o enfoque descritivo, “que tentava ser neutro em relação às teorias etiológicas” a partir de um “trabalho empírico” (APA, 2002, pág. 23). As causas de uma doença, alegavam os responsáveis pelas novas versões, “devem constituir um princípio classificatório somente quando são claramente conhecidas” (R. R. GRINKER, 2010, pág. 129). Os aspectos psicodinâmicos dão lugar a um modelo regulamentar ou legislativo e o conceito psicanalítico de neurose, “visto como vago e não científico”, é excluído (C. DUNKER e F. KYRILLOS NETO, 2011, pág. 615). O Manual começa a abandonar a perspectiva psicanalítica.
É justamente aí que o autismo aparece pela primeira vez como entidade nosográfica. É criada a classe diagnóstica “Transtornos Globais do Desenvolvimento – TGD” (Pervasive Developmental Disorders – PDD) , no qual o “Autismo Infantil” figura como uma das subcategorias. Revista a terceira edição, o autismo passa a ser nomeado “Transtorno Autístico”. O diagnóstico de “Esquizofrenia tipo infantil” desaparece, sob a alegação de que é extremamente raro na infância (APA, 1987). A partir daí, “o autismo se transforma num diagnóstico convencional na prática psiquiátrica, tornando-se mais comum ainda nos anos seguintes.” (R. R. GRINKER, 2010, pág.120).
Na quarta edição do Manual (1994) e sua revisão (APA, 2002), o autismo se mantém como referência para as novas classificações e os TGDs recebem outros subtipos: o “Transtorno de Rett”, o “Transtorno Desintegrativo da Infância” e o “Transtorno de Asperger”. O DSM-IV é proposto como suporte educativo para o ensino de psicopatologia e se torna “A Bíblia da Saúde Mental”. Completamente afastado das bases psicanalíticas, e sob a influência da farmacologia e dos resultados das pesquisas das neurociências, o DSM se autoproclama ateórico.
O DSM-5 (2013), com lançamento previsto para o próximo mês de maio, introduz outras mudanças: a extinção dos TGDs e a criação de uma única categoria diagnóstica para os casos de autismo (“Transtorno do Espectro do Autismo”), independentemente de suas diversas formas de manifestação. Como o diagnóstico é efetuado exclusivamente com base no comportamento observável, o Manual radicaliza o alcance da noção de contínuo autista, adotando mais do que antes a ideia de “espectro”. A substituição do grupo de transtornos, antes incluído na classe dos TGDs por uma única categoria, concorrerá definitivamente para transformar o autismo num dos principais diagnósticos psiquiátricos para a criança. .
O autismo se transforma num transtorno do neurodesenvolvimento, o que implica necessariamente a tomada de uma posição de ordem teórica, apesar do “ateorismo” apregoado (APA, 2013), revelando-se então o forte compromisso dos organizadores do Manual “com os autores e teorias das chamadas neurociências” (S. LAIA, 2012, pág. 12).

3. Como o DSM transformou a psiquiatria

Antes do DSM-III, psiquiatria e psicanálise partilhavam o objetivo de compreender o problema fundamental da origem do sintoma. O intuito era então tratar o problema, e não o sintoma. As classificações diagnósticas das edições anteriores (DSM-I e II) adotavam as categorias psicanalíticas de neurose e psicose.
No entanto, a credibilidade da psiquiatria como ciência e campo legítimo da medicina era questionada, mesmo depois da publicação das primeiras edições do Manual, que, ao que parece, não receberam a receptividade esperada. O governo diminuía os investimentos em pesquisas psiquiátricas e os planos de saúde viam a psiquiatria como “um poço sem fundo, com métodos de avaliação e tratamento inadequados” (R. R. GRINKER, 2010, pág. 124).
O DSM-III provocou uma reviravolta na imagem da psiquiatria. Afastando-se da psicanálise, que não deixava de reconhecer a importância das considerações de ordem teórico-etiológica, a psiquiatria pôde justificar o seu sistema classificatório, ou seja, a focalização do sintoma nele mesmo, na medida em que a pura observação empírica das manifestações de comportamento (sua presença, constância e intensidade) passa a ser o critério utilizado no diagnóstico.
O DSM-IV repete os princípios da edição anterior: descrição objetiva dos sintomas com exclusão da etiologia. Como se expressa R. R. GRINKER (2010), confesso defensor do DSM, a “popularização do autismo” é consequência, dentre outros fatores, do declínio da psicanálise e da absoluta recusa da ideia de que o transtorno poderia ser consequência da “maldades das mães”, conforme a tão propalada hipótese de B. Bettelheim, que passou a usar de forma equivocada a expressão “mães geladeiras”, criada por L. Kanner, mas posteriormente por ele mesmo rechaçada.
Efetivamente, porém, a psiquiatria estava oferecendo classificações diagnósticas padronizadas para atender a demanda das companhias seguradoras de saúde e das indústrias farmacêuticas, que necessitavam de parâmetros e regras para nortear suas ações. Aliás, a indústria farmacêutica vem sendo intensamente favorecida com a multiplicação de diagnósticos a cada nova edição do DSM, contando ao mesmo tempo com o respaldo das neurociências, num contexto cada vez mais neoliberal, no qual há uma redução do poder do Estado na esfera econômica e social.
Coerente com os critérios de classificação praticados pela APA, o tratamento do transtorno passa a ser a eliminação ou o abrandamento do sintoma, já que este corresponde ao comportamento alterado. Consequentemente, a clínica farmacológica e cognitivo-comportamental é favorecida, uma vez que trabalham com idêntico propósito: fazer desaparecer o comportamento “anormal”. Estava selada assim a aliança entre psiquiatria, indústria farmacêutica e terapias cognitivo-comportamentais, um compromisso que transparece nas recomendações da APA para que esses “tratamentos” sejam aplicados.

4. “Transtorno do Espectro Autista – TEA” como diagnóstico antes do DSM-5
Na Grécia Antiga, o termo “idiota” designava aquele que não participava da vida pública e que, por isso, era tido como uma espécie de deficiente intelectual. Difundido ao longo do século XIX, o termo passou a designar aquele que não sai de si mesmo. Essa observação leva Hochmann a supor uma história do autismo antes do autismo (J. HOCHMANN, 2009).
Em 1912, Bleuler usa o termo “autismo” – do grego auto (si próprio) e do sufixo ismo (estado) – para indicar um dos sintomas das crianças que tinham recebido o diagnóstico de “Esquizofrenia”: a predominância relativa ou absoluta do mundo interior. Somente mais tarde, com a descrição de L. Kanner (1943, 1983, 1997), o autismo passou a definir um conjunto de distúrbios (“Distúrbios autísticos inatos do contato afetivo”) e, logo depois, uma síndrome, designada “Autismo Infantil Precoce” (KANNER, 1946), nomeação que põe em evidência a precocidade do aparecimento das manifestações.
A partir de então, os sinais e sintomas categorizando o autismo mudaram constantemente até receberem a noção de “espectro autista”. Cabe a L. Wing (L. WING e J. GOULD, 1979 apud U. FRITH, 2003; L. WING, 1996, apud U. FRITH, 2003), psiquiatra inglesa, a definição de autismo como um espectro, isto é, uma gama de comportamentos determinados em vários graus e maneiras. Apoiada na descrição da Síndrome de Asperger e em suas própias pesquisas, sublinha que, dependendo da severidade e da variedade dos sintomas a criança pode receber o diagnóstico de autismo de alto funcionamento, com atraso severo no desenvolvimento, ou ainda se situar em qualquer outra faixa do espectro. Wing baseia essa afirmação a partir da observação de três déficits comumente presentes nas manifestações do transtorno, chamados a Tríade de Wing: (a) alterações qualitativas na comunicação verbal e não verbal, (b) alterações qualitativas nas interações sociais recíprocas e (c) centro de interesses restritos, estereotipados e repetitivos.
Surge assim a expressão Transtorno do Espectro Autista (TEA), que passa a ser usada como sinônimo da classe diagnóstica “Transtornos Globais do Desenvolvimento”, criada posteriormente pela terceira edição do DSM, quando a APA, aceitando a ideia da existência do contínuo autista, formula o primeiro conjunto de critérios para o diagnóstico de autismo.
De acordo com Filipeck et al. (1999), pode-se falar tanto em “Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD)” como em “Transtorno do Espectro Autista (TEA)”. Assim, tornou-se corrente entre médicos o uso frequente da expressão “espectro autista” para o diagnóstico da criança. Ora, adotando esse critério o médico não precisa situar a particularidade da subcategoria diagnóstica na qual a criança pode se classificar .
Esse modo preferencial de lidar com o diagnóstico permite ao médico reduzir o tempo de consulta, ainda que a indicação de tratamento seja a mesma para todos os casos: o tratamento medicamentoso e cognitivo-comportamental. Por outro lado, como vimos, leva também a um aumento do número de diagnósticos de autismo, na medida em que não há lugar para outras subcategorias como o Transtorno de Asperger, de Rett e Desintegrativo da Infância.
Com o DSM-5, a APA consagrará e formalizará o uso, já corrente, da “classificação” espectro autista , a despeito das consequencias que daí podem advir. Milhares de observações críticas e manifestos contrários ao DSM-5 foram postados no site da APA quando os dois primeiros rascunhos do Manual foram submetidos ao comentário público, contudo sem resultados. Uma parte deles apontava a multiplicação e proliferação de categorias diagnósticas, como o manifesto “O DSM-5 e o apagamento do sujeito”, de Intersecção Psicanalítica do Brasil (IPB, 2012). Outros indicavam o desaparecimento de categorias diagnósticas antes presentes no DSM, e muitos se mostraram particularmente contrários à inclusão da Síndrome de Asperger na classificação de autismo, por considerarem que o caráter inclusivo da categoria “Transtorno do Espectro do Autismo” extinguirá as diferenças entre dois quadros clínicos tão distintos. Apesar das críticas, a quinta edição do Manual manterá as modificações previstas nos rascunhos.

5. Efeitos do diagnóstico “espectro autista” sobre pais e crianças

Desaparecendo do Manual as psicoses infantis e categorias como a Síndrome de Asperger e outras, o médico ou outro profissional será levado a utilizar o diagnóstico “Transtorno do Espectro do Autismo”, ou mais simplesmente, “espectro autista”. Contudo, como o desaparecimento de categorias diagnósticas não faz desaparecer a patologia, o erro diagnóstico é a consequência mais imediatamente vislumbrada.
De outra parte, a precipitação na formulação do diagnóstico pelos critérios do DSM é já uma constatação. Torna-se cada vez mais comum o recebimento de crianças diagnosticadas com “espectro autista”, muito antes dos três anos. Nesses casos, privilegia-se a observação do comportamento da criança, quase sempre a partir de uma única consulta, e se são verificados alguns sintomas que, segundo os preceitos do Manual são característicos de autismo, o diagnóstico é declarado. Desconhece-se que, numa idade tão precoce, um quadro patológico não pode ser considerado já decidido (L. BERNARDINO, 2010).
Ignora-se, de outra parte, que as manifestações podem indicar apenas perturbações da comunicação que, se tratadas precocemente, podem desaparecer. É importante detectar sinais de sofrimento psíquico que podem perturbar o desenvolvimento da criança, a fim de que uma intervenção em tempo possa ocorrer. Entretanto, um diagnóstico de “espectro autista” pode selar definitivamente o destino da criança. É impressionante a frequência com que pais, a partir daí, passam a avaliar o comportamento dos filhos como “manifestações da doença”, comportamento que seria considerado absolutamente normal e esperado em outras crianças.
A realidade da prática clínica revela que as reações de pais ao diagnóstico “espectro autista” são na maior parte das vezes devastadoras, tanto para eles como para os filhos. Por um lado, o preconceito que ainda cerca o diagnóstico leva muitas vezes os pais a sentirem-se envergonhados e revoltados, fazendo-os afastar a criança do convívio social. Por outro, os filhos sofrem com o desinvestimento dos pais, a partir de um tão perturbador diagnóstico .
Tanto o erro diagnóstico como a precipitação diagnóstica acarretam graves consequências, na medida em que a direção do tratamento está diretamente associada ao diagnóstico formulado.
A reação mais comum ao mal-estar é a inclinação pela sua imediata supressão. Assim, a partir do diagnóstico recomenda-se aos pais o tratamento medicamentoso e/ou cognitivo-comportamental para a criança. Todavia, apesar dos grandes avanços da indústria farmacológica, não são desconhecidas as repercussões desastrosas que determinadas substâncias causam ao organismo, principalmente na infância e adolescência. Por outro lado, a medicalização não pretende curar o espectro, mas se destina especificamente aos chamados sintomas-alvo: fazer desaparecer ou abrandar as crises de agitação, de angústia, os distúrbios de sono.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) adota o mesmo critério: afastar o comportamento indesejado. Priorizando os quadros nos quais há um predomínio das questões cognitivas em detrimento da questão da organização da personalidade, os procedimentos classificatórios do DSM tentam justificar a preferência pelas terapias cognitivo-comportamentais (TCCs). Assim, e embora os quadros clínicos possam responder a diferentes lógicas de constituição (diferentes patologias), crianças com características subjetivas diferentes são submetidas a tratamentos iguais de treinamento de habilidades sociais e de aprendizagem (N. SIBEMBERG, 2011).

6. A tarefa da Psicanálise

A adoção da nomenclatura do DSM traz, desde sempre, impactos sobre os pais, sobre as crianças e sobre as formas de atendimento. Um diagnóstico referenciado pelo DSM constitui-se numa nomeação que ao mesmo tempo em que nos convoca a um diálogo interdisciplinar, também traz consigo todas as significações que essa nomeação engendra, sendo um dos grandes equívocos considerar como definitiva e inequívoca essa nomeação. Faz-se necessário que a especificidade do discurso psicanalítico seja considerada, pois só ela leva em conta a dimensão inconsciente, a singularidade do desejo e a condição de sujeito falante, apostando em sua emergência para além de qualquer diagnóstico.
A escuta psicanalítica inicialmente dá lugar à expressão do drama que se abriu no interior da família, fazendo-os questionar todo o aparato genético e psíquico que tinham para conduzirem os processos de desenvolvimento de seu filho, e que se perdem quando algo estranho se presentifica, deixando as coisas meio sem rumo.
Ao mesmo tempo, ao escutar a criança em sua singularidade, abre-se um espaço para que o sujeito possa se expressar. Lacunas discursivas, repetições sintomáticas, ambiguidades, contradições e acontecimentos inesperados são pontuados na intenção de elaborar alguma hipótese sobre o funcionamento da criança. Nesse processo, a criança é colocada na posição de falante, reconhecida como sujeito capaz de assumir um discurso próprio e particular, demonstrando qual é sua inscrição subjetiva e o seu funcionamento psíquico.
É nesse lugar que a escuta psicanalítica poderá fazer a diferença na condução do tratamento. Na medida em que essa escuta transcorre e o analista leva em conta o sofrimento de todos e fornece pontos de apoio e de fortalecimento aos pais, proporciona certo alívio ao drama vivido, abrindo espaço para compor o campo no qual se dará a possibilidade de acesso ao funcionamento mental da criança diagnosticada dentro do espectro autista. Alavanca-se, então, a construção de possibilidades.
No desenrolar dessa construção, abre-se a possibilidade de fazer circular os discursos das diversas áreas de atendimento à criança e, mais ainda, de, para além desses discursos, engendrar o tratamento ético de que ela precisa. Entretanto, se nesse espaço de atendimento houver saberes hegemônicos e inquestionáveis, tampona-se a emergência de uma intersecção, inviabilizando possibilidades de engajamento interdisciplinar. Se, ao contrário, cada segmento sustenta seu conhecimento, mas decanta a essência disso para favorecer a circulação dos discursos interdisciplinares, viabiliza-se a existência da diferença, contando com ela na direção do tratamento. Na medida em que essa circulação discursiva se dá numa relação horizontal, emerge a possibilidade de apropriação de outros discursos na mesma proporção em que cada discurso se apropria e é apropriado pelos demais. Um movimento favorável se instala no campo de tratamento, propiciando à criança em análise certa estabilidade, na qual poderá transitar suas instabilidades constitucionais, podendo emergir daí pontos que favoreçam um enraizamento psíquico.
A presença da psicanálise numa clínica interdisciplinar não está compromissada em superar os impasses clínicos, as divergências diagnósticas, nem em homogeneizar os vários campos conceituais, mas, ao contrário, colocar questões e se servir delas para intervir, reconhecendo sempre os diferentes discursos disciplinares.
A proposição e a construção de uma prática interdisciplinar sob os auspícios da ética psicanalítica, reconhecendo e relativizando os saberes particulares, engendrará sempre um permanente questionamento que se abre para uma maior compreensão do sujeito desejante. Também se constitui tarefa da psicanálise assumir posicionamentos diante das políticas gestoras do setor público e privado em torno da infância e, principalmente, diante da elaboração de quaisquer manuais classificatórios que desconsiderem a constituição subjetiva da criança. Nesse sentido, faz-se necessário, desde já, que a psicanálise seja formalmente considerada e incluída nas futuras revisões e/ou edições do DSM.

Nota 1
Antecedentes Históricos

Foi a partir de um censo realizado em 1840 que os Estados Unidos da América do Norte realizaram a primeira tentativa de coletar informações sobre a doença mental, considerando à época uma única oposição: idiotismo/insanidade. Em outro censo, levado a efeito em 1880, já foram consideradas sete categorias de doença: mania, melancolia, monomania, paresia, demência, dipsomania e epilepsia (C. DUNKER e F. KYRILLOS NETO, 2011, pag.613). No segundo recenseamento se pretendia estabelecer um quantitativo em termos epidemiológicos estatísticos.
Os organizadores do DSM referem que durante toda a história da medicina se sentia a necessidade de uma classificação dos transtornos mentais. Havia então muitas nomenclaturas, assentadas em critérios distintos: sobre a fenomenologia, sobre a etiologia ou sobre o curso do transtorno. Outra divergência dizia respeito à finalidade que os sistemas classificatórios deveriam atender: o contexto clínico, de pesquisa ou estatístico? (APA, 2002). Ao mesmo tempo havia uma constante preocupação em separar a idiotia (retardo grave) da insanidade mental.
Todavia, reconhecem os idealizadores do DSM que, nos Estados Unidos, “o impulso inicial para a criação do DSM foi a necessidade de coletar informações estatísticas” (APA, 2002, pag.22). No entanto, segundo F. Sauvagnat (2012), “[…] versões anteriores do DSM eram constituídas por instrumentos que não eram diagnósticos, mas instrumentos epidemiológicos. Isso permitia justamente trabalhar sobre dossiês, e inicialmente se tratava de encontrar causas da morte, da mortalidade. Se tentarmos entender a que tipo de paciente o primeiro DSM se endereça, é um paciente morto”.
Até o surgimento do DSM, diversas tentativas de se normatizar uma classificação em âmbito nacional foram realizadas nos Estados Unidos da América do Norte. Um sistema classificatório surgiu em 1918, listando 22 classes de distúrbios, com o nome de Manual Estatístico para o Uso de Instituições de Insanos (DSM). Uma nova versão desse primeiro sistema classificatório apareceu em 1952: o DSM-I, que constituía uma variante da CID-6 (Classificação Internacional de Doenças, 1949). Para a APA (2002), o DSM-I foi “o primeiro manual oficial de transtornos mentais a concentrar-se na utilidade clínica”.
Em 1968, e considerando 182 classes de distúrbios, foi editado o DSM-II. Em 1980, o DSM-III foi publicado listando 265 categorias diagnósticas. Admitindo inconsistências e ausência de clareza de critérios nessa versão, a APA desenvolveu revisões e correções que culminaram em 1987 no DSM-III-R, no qual foi reinserido o termo neurose, retirado da terceira edição. O DSM-III-R continha 292 diagnósticos e o Manual ainda contava com a visão da psicanálise.
No ano de 1994 foi publicado o DSM-IV e em 2000 sua edição revisada, o DSM-IV-R, considerando 297 categorias de transtornos mentais. O DSM-5, com lançamento confirmado para maio de 2013, conterá cerca de 300 categorias. Como nas edições anteriores, o Manual permanecerá dispensando os fatores da individualidade em prol de uma massificação que considera apenas o sintoma (P. CHACÓN, 2012), mesmo assim sem nenhuma precisão, até porque a produção subjetiva do sujeito não é mensurável nem quantificável.

SOBRE OS AUTORES:
Anna Aline Coutinho – Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE;
Cristiane Carrijo – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP – Bauru/SP;
Daniely Siqueira – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Denize Bomfim – Centro de Orientação Médico-Psicopedagógica da Secretaria de Estado de Saúde do DF (COMPP/SES/DF); Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil – DF (ABENEPI – DF – Presidente da gestão 2012/2013)
Gertrudes Pastl – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE;
Ione Silva – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Brasília/DF; gerenciadora do GT 11 do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública;
Juliana Tavares – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Brasília/DF
Juliana Torres – Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE;
Luíza Bradley Araújo – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Manoel Ferreira – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE;
Margaret Leivas – Centro de Estudos, Pesquisas e Atendimento Global da Infância e Adolescência – CEPAGIA / Brasília/DF;
Maria José Maquiné Celestino – Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros – Universidade de Pernambuco – CISAM/UPE; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Mariel Lyra – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Marisa Brito Neves – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Brasília/DF
Miryelle Pedrosa – Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Brasília/DF
Rachel Rangel – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Rita Smolianinoff – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE;
Severina Silvia Ferreira – Membro integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; NINAR; coordenadora da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Suzana Konstantinos Livadias Hospital das Clínicas – Universidade de Pernambuco; Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE;
Tereza Barretto Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças, segmento de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB Recife/PE; membro do NINAR – Núcleo de Estudos Psicanalíticos; participante da Pesquisa PREAUT – Eixo Recife/PE.

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