A Psicanálise no tratamento interdisciplinar do autismo

O texto de hoje é  “A Psicanálise no tratamento interdisciplinar do autismo”

 

O tratamento interdisciplinar teve seu início na clínica com a infância e, sobretudo, no atendimento de crianças com problemas no desenvolvimento, posto que os impasses decorrentes dessas questões interrogavam e convocavam diferentes especialidades.

A revolução científica do século XVIII, baseada nos ideais da modernidade que propunha sistemas explicativos e descritivos, promoveu a grande proliferação de disciplinas que conhecemos atualmente. A organização da produção do conhecimento por áreas possibilitou o aprofundamento nos estudos de determinados aspectos do objeto de cada disciplina, respondendo, em certa medida, ao ideal de ciência do século XX pautado nos princípios de ordem, separação e redução.

Tais princípios, porém, levaram a uma fragmentação do conhecimento, gerando alguns impasses para o clínico que se ocupa dos problemas da infância. Afinal, por quantos especialistas deve passar uma criança que apresenta problemas em seu desenvolvimento?  E quantos tratamentos simultâneos devem ser empreendidos quando se busca tratar, área por área, todos os aspectos implicados no desenvolvimento e na constituição da criança?

Nesse contexto, gerou-se a hipótese de que a adição de conhecimentos e, por consequência, de intervenções nos problemas do desenvolvimento contribuiria para melhores resultados no tratamento. Em casos de grande complexidade, em que diferentes funções apresentam-se afetadas (motoras, sensoriais, neurológicas, cognitivas etc.), essa suposição foi ainda mais evidente.

Assim, configurou-se a chamada multidisciplinaridade, um mosaico de múltiplas intervenções, somando-se área por área que, ao contrário da totalização a que se propõe, acaba conduzindo a uma infinita fragmentação do sujeito em questão.

Este tipo de tratamento, recortado por áreas, coloca o risco de se compor um pensamento tautológico em que cada intervenção corresponda à lógica de pensamento do seu objeto de estudo, reduzindo a clínica ao campo de verificações segmentárias para comprovar não a melhora de cada paciente, mas a eficácia da técnica aplicada. O dilema passou a ser: quantos terapeutas para cada criança?

Outra proposta é que se conceba o atendimento de crianças com graves comprometimentos no âmbito de um trabalho interdisciplinar que implica a renúncia ao ideal de totalidade e à ideia de que a soma de parcialidades se integra em uma totalização. Ou seja, essa modalidade de tratamento não se apoia em uma complementação de conhecimentos que visa a um saber total e único sobre a criança.

A perspectiva interdisciplinar ultrapassa a composição e somatória das intervenções e, por isso mesmo, ela não é apenas uma nova forma de nomear um tratamento que se compõe por várias especialidades, mas sim, uma prática que possibilita e conduz à elaboração de critérios clínicos comuns que atravessam as diferentes disciplinas implicadas na intervenção.

A interdisciplina balizada pelos referenciais da psicanálise aponta, antes de tudo, para uma ética na direção do tratamento. Essa ética é sustentada por dois pilares fundamentais: primeiro, que nenhum saber é total e, segundo, que a criança deve ser considerada como sujeito desde o seu início de vida.

Em relação ao primeiro, cabe lembrar que nenhuma intervenção isolada poderia dar conta da complexidade que os casos apresentam, e que, a compreensão a respeito da etiologia, dos sintomas e do tratamento não podem ser uma verdade única. Ao mesmo tempo, vale lembrar que considerar a prática entre vários não equivale a cair em um ecletismo ou sincretismo, tampouco em um amálgama de concepções heterogêneas. Trata-se aqui de uma questão epistemológica. Cabe aos profissionais reconhecer a legitimidade de outros campos do conhecimento que não coincidem com os seus, os pontos de cruzamento e os vetores que caminham em uma mesma direção, embora não haja superposição strictu senso.

Dessa maneira, considerando a complexidade de quadros como o autismo, torna-se imprescindível que a intervenção seja uma prática interdisciplinar, na qual uma equipe de profissionais possa desdobrar, de modo conjunto, os impasses colocados pelo seu tratamento. Nesse sentido, trata-se de questionar qualquer modelo de intervenção que proponha, a priori, uma prática clínica exclusiva e totalizante, em detrimento de um modelo interdisciplinar que exige formação e reflexão contínua de toda equipe clínica.

E é partindo de tal complexidade que a psicanálise, desde o início do estabelecimento desse quadro, vem produzindo conhecimentos sobre o tratamento do autismo em um trabalho que extrapola a intervenção em consultórios particulares e amplia-se para instituições públicas de saúde como UBS, CAPS, clínicas de atendimento ambulatorial universitárias, ONGs, hospitais, instituições terapêuticas, creches, escolas e abrigos, nos quais diversos profissionais intervêm com um referencial psicanalítico no atendimento daqueles que se apresentam no chamado “espectro autístico“.

Uma prática interdisciplinar requer uma constante interlocução entre os diferentes profissionais (médicos neurologistas, pediatras, psiquiatras e geneticistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicanalistas, educadores, pedagogos, terapeutas ocupacionais, psicomotricistas, assistentes sociais, dentre outros), visando a criar, em conjunto, critérios clínicos comuns. Para isso, é necessário que esses profissionais possam compartilhar concepções acerca de como se produz um sintoma e o que ele representa; de como ocorre à constituição psíquica e de como se dão as diferentes aquisições no campo da linguagem, aprendizagem, psicomotricidade e hábitos de vida diária.

O outro pilar que nos aponta a psicanálise a respeito do tratamento interdisciplinar circunscreve a postura central assumida por esse grupo[1] quanto à importância do tratamento respeitando essa abordagem. Acreditamos que é preciso estar aberto para refletir acerca de como produzir nossas práticas tomando como princípio fundamental que há ali um sujeito. Esse é um constante desafio aos profissionais, já que as crianças, muitas vezes, na sua condição de infans, convocam o outro para que fale por elas, e mais acentuadamente nos casos em que as crianças possuem comprometimentos importantes na linguagem. Tais balizamentos produzem efeitos do lado de qualquer clínico, pois implicam operar sempre no “caso a caso”, e deparar com a particularidade de cada paciente em questão.

É a partir da clínica que as decisões serão tomadas e nunca na direção contrária, ou seja, jamais privilegiando o saber das disciplinas em detrimento do sujeito.  A interlocução com outros profissionais promove constantes fissuras no saber estabelecido até ali, levando à desmontagem de uma compreensão engessada e coagulada sobre o caso, ressignificando e produzindo um novo saber que torna possível ao clínico redimensionar sua forma de intervenção.

A psicanálise não intervém e não avança no conhecimento sobre o autismo de modo isolado e, portanto, a interdisciplinaridade é um dos princípios que faz parte da metodologia dos psicanalistas e de todos os profissionais que trabalham em saúde mental ao tratar de pacientes com quadros de autismo. Ela é necessária ao atendimento, à pesquisa, à formação dos profissionais da área da saúde e à transmissão de conhecimentos.

A psicanálise propõe que corpo e psiquismo não se constituem isoladamente, mas que são tramados em uma interdependência a partir de uma intervenção qualificada daquele que se ocupa dos cuidados iniciais com o bebê. A constituição subjetiva se tece em torno da antecipação de um sujeito psíquico na criança, mesmo quando ela ainda não fala, a partir das trocas carregadas de prazer entre o bebê, seu corpo, e quem se ocupa dos seus cuidados. Essas operações acontecem intermediadas pelo campo simbólico, imersão da criança no campo das representações, das palavras, presenças e ausências. Elas armam uma trama complexa que entrelaça constituição psíquica e desenvolvimento.

Desse modo, as dificuldades no estabelecimento da relação com os outros, presentes nas crianças com risco de autismo, implicam impedimentos nos diferentes aspectos, da maturação, do crescimento ou desenvolvimento da criança. Além disso, o autismo pode estar associado a outros problemas, tais como síndromes genéticas, deficiências sensoriais ou quadros neurológicos, que tornam indispensável uma intervenção conjunta. Isso evidencia a importância da intervenção do psicanalista e, também, de profissionais de outras disciplinas.

Assim, faz-se necessária a interlocução com pedagogos e psicopedagogos em relação à aprendizagem e à inclusão escolar; com fonoaudiólogos, foniatras e linguistas acerca da linguagem; com fisioterapeutas e psicomotricistas acerca do corpo em movimento; com pediatras, neurologistas, geneticistas e psiquiatras acerca da implicação orgânica e medicação, entre outros profissionais (nas funções de acompanhantes terapêuticos, terapeutas ocupacionais ou assistentes sociais), e essa tem sido a prática corrente dos psicanalistas nesse campo.

Cabe ressaltar as práticas escolares que compõem a rede interdisciplinar no tratamento do autismo. O direito de toda criança à educação foi proclamado na Declaração Mundial dos Direitos Humanos, em 1948, e ratificado pela Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada pela ONU em 1990. Assim, todas as crianças passam a ter esse direito assegurado e inicia-se um movimento mais consistente voltado para a inclusão de crianças ditas com “necessidades educacionais especiais” (incluindo-se aqui as crianças com autismo) nas escolas comuns. Tal afirmação apoia-se na concepção de que o lugar social das crianças é na escola, junto a outras crianças.

Desta forma, a reflexão sobre a interdisciplinaridade no tratamento das crianças com autismo deve considerar a escolarização, compreendida como um direito da criança e vetor fundamental da sua constituição subjetiva. Entendemos que a escola é o local que abre as portas de novos elementos da cultura, onde a criança fará parte de um grupo em que a rotina e as regras são para todos. A Educação vai além do campo pedagógico, pois possibilita partilhar de uma referência social, a saída da lógica familiar e a entrada do sujeito na lógica cultural.

Nesse sentido, podemos pensar o trabalho de inclusão escolar de crianças com autismo como um “dispositivo” terapêutico que faz parte da rede interdisciplinar, e possibilita que a criança circule pela norma social, participe do discurso escolar e conquiste a chance de dizer-se como sujeito no laço social.

A interlocução entre os campos da saúde e da educação também tem sido prática corrente dos psicanalistas frente à construção de um trabalho interdisciplinar para (re)pensar coletivamente estratégias na direção de favorecer o processo de escolarização (aprendizagem formal e socialização) dessas crianças.

Vale lembrar que quando se tornam adolescentes ou adultos, a ação interdisciplinar permanece e acompanha as fases próprias da idade em que o sujeito se encontra. Com a escuta das mudanças próprias da adolescência e na inclusão no mundo do trabalho, torna-se necessária a ampliação da interdisciplinaridade com novos atores e profissionais para se alcançar a participação ativa das pessoas com o quadro de autismo e sua inclusão social.

Por essa razão, ao serem formuladas políticas públicas, não poderá haver uma única metodologia padronizada e priorizada, pois devem ser levadas em conta as equipes que trabalham com diferentes abordagens e sustentam uma concepção compartilhada que possibilita a articulação da direção do tratamento interdisciplinar. Uma intervenção em rede expõe todos os envolvidos à alternância de olhares, à circulação discursiva, às diferentes expectativas, enfim, a uma pluralidade que, por si, promove efeitos terapêuticos.

Isso permite que a pessoa com autismo e seus familiares possam ter acesso a diferentes metodologias de tratamento, podendo realizar a escolha de como consideram melhor tratá-lo.

[1] Associação Serpiá, Clínica Interdisciplinar Mauro Spinelli, CAIS, Carretel – Clínica Interdisciplinar do Laço, CAPSi Guarulhos, CAPSi Lapa, CRIA-HSP, DERDIC/PUC-SP, Espaço Escuta, Escola Trilha, Grupo Laço, Instituto da Família, Lugar de Vida, Instituto Sedes Sapientiae.

Participantes e colaboradores diretos do texto:

Juliana Mori (CRIA /Unifesp), Marise Bastos (Lugar de Vida/SP), Sandra Pavone (Derdic/SP), Yone Maria Rafaeli (Derdic/SP), Cristina Abranches (CAIS),  Carina Faria (Derdic/SP, NEPPEC/SP), Olívia Françozo (Grupo Laço/SP), Paula Albano (Grupo Laço/SP), Mariana Ribeiro (Grupo Laço/SP), Bruna Kibrit (Grupo Laço/SP), Helena Gusso (Grupo Laço/SP), Marcos Vasconcelos (Grupo Laço/SP), Maribel Melo (Espaço Escuta/PR), Maria Cristina Oliveira (Escola Trilha/SP), Eloísa Lacerda (Carretel/SP), Denise Garcia (Carretel/SP), Julieta Jerusalinsky (Clínica Interdisciplinar Mauro Spinelli/SP, NEPPEC/SP, Centro Lydia Coriat) Marta Gimenez (Clínica Interdisciplinar Mauro Spinelli/SP), Ana Clélia Rocha (Clínica Interdisciplinar Mauro Spinelli/SP).

 

Anúncios